‘Não é lá essas coisas’, afirma Saraiva sobre produtividade da PF do Rio

‘Não é lá essas coisas’, afirma Saraiva sobre produtividade da PF do Rio

Em depoimento no inquérito Moro contra Bolsonaro, delegado Alexandre Saraiva, chefe da PF no Amazonas, afirmou que 'todos que conhecem' a PF no Rio de Janeiro sabem que a produtividade da unidade 'não é lá essas coisas'; ao contrário do que foi publicado Saraiva não se referiu ao delegado Ricardo Saadi, ex-chefe da corporação no Rio

Fausto Macedo e Rayssa Motta

14 de maio de 2020 | 12h23

Atualizada às 17h40 com correção*

Alexandre Saraiva e Ricardo Saadi. Fotos: Wérica Lima/ Inpa e Tomaz Silva/Agência Brasil

Em depoimento na quarta-feira, 13, no âmbito do inquérito que apura suposta interferência do presidente Jair Bolsonaro na Polícia Federal, o delegado Alexandre da Silva Saraiva, chefe da corporação no Amazonas, disse aos investigadores que ‘todos que conhecem’ a PF no Rio de Janeiro sabem que a produtividade da unidade ‘não é lá essas coisas’. A afirmação se deu após questionamento sobre as tratativas para a primeira tentativa de troca no comando da corporação fluminense, à época comandada por Ricardo Saadi. Inicialmente o presidente Jair Bolsonaro justificou a troca com ‘questões de produtividade’, mas a PF reagiu dizendo que a troca era motivada por desejo pessoal de Saadi.

“Indagado se nas conversas com o Dr. Ramagem foi relatada ao deponente alguma preocupação em relação à produtividade da Superintendência do RJ, o depoente esclarece que não, embora todos que conheçam a SR/RJ saibam que a produtividade daquela unidade, na realidade, ‘não é lá essas coisas’”, registra o termo da oitiva de Saraiva.

O delegado afirmou ainda que o índice de produtividade operacional daquela Superintendência, que saltou da 24ª para a 4ª posição, ‘não traduz, de fato, a realidade operacional da unidade’. A mudança no índice foi registrada durante a gestão de Saadi e destacada quando a PF rebateu em nota as alegações do presidente, afirmando que a troca não seria motivada por desempenho, mas sim por um desejo do ex-chefe da corporação fluminense. Como revelou o Estado, no mesmo texto a PF incliu o nome de Carlos Oliveira Sousa propositadamente para evitar uma indicação política da parte do presidente.

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O delegado afirmou que os índices de produtividade operacionais parciais não refletem a realidade operacional verdadeira de nenhuma das unidades da federação. Anotou em seuida que tal realidade ‘não elide o bom trabalho desempenhado pelo dr Saadi a frente da SR/RJ’.

Foto: Reprodução

Saraiva foi chamado a depôr pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Celso de Mello, após envolvimento na crise da PF do Rio ano passado. Após antecipar a troca na PF fluminense e depois de a corporação apontar Carlos Oliveira para a vaga, Bolsonaro afirmou que ‘ficou sabendo’ que Saraiva, amigo dos filhos do presidente, iria assumir o posto na superintendência fluminense. Em nova entrevista, horas depois, baixou o tom. “Eu sugeri o de Manaus. Se vier o de Pernambuco não tem problema, não”, afirmou.

Ex-superintendente da Polícia Federal no Rio de Janeiro, Ricardo Saadi afirmou em depoimento prestado na segunda, 11, que sua saída do comando da corporação fluminense foi antecipada em agosto do ano passado a pedido e sem justificativa clara. A exoneração provocou atritos entre Bolsonaro e o então ministro Sérgio Moro.

Saadi está na corporação há 17 anos. Além de ocupar os cargos de superintendente no Rio de Janeiro e em Porto Alegre, o delegado comandou Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional (DRCI) e passou pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras(Coaf), órgão responsável por analisar transações financeiras suspeitas.

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A primeira crise na PF

A primeira crise envolvendo a PF, Valeixo, Moro e Bolsonaro teve início em agosto de 2019, quando o presidente antecipou a saída do delegado Ricardo Saadi da superintendência da PF no Rio, justificando que seria uma mudança por ‘produtividade’ e que haveria ‘problemas na superintendência’.

A informação foi rebatida pela PF que, em nota, afirmou que a saída de Saadi não tinha relação com desempenho e indicou que novo superintendente do Rio seria Carlos Henrique Oliveira Sousa. Como revelou o Estadoo nome de Sousa foi incluído na nota propositadamente para evitar uma indicação política da parte do presidente.

No dia seguinte, em resposta à nota da PF, Bolsonaro afirmou que ‘ficou sabendo’ que quem assumirá a chefia da PF fluminense seria o chefe da corporação no Amazonas, Alexandre Silva Saraiva, amigo dos filhos do presidenteEm nova entrevista, horas depois, baixou o tom. “Eu sugeri o de Manaus. Se vier o de Pernambuco não tem problema, não”, afirmou.

Na semana seguinte, o presidente ainda ameaçou demitir Maurício Valeixo como forma de demonstrar que é ele quem manda na corporação e não o então ministro da Justiça, Sérgio Moro.

*Correção: Ao contrário do que foi inicialmente publicado no Blog, em nenhum momento o delegado Alexandre Saraiva se referiu ao delegado Ricardo Saadi quando usou a expressão ‘não é lá essas coisas’. Saraiva, em seu depoimento nesta quarta-feira,13, se referia à produtividade na Superintendência Regional da Polícia Federal no Rio no ano passado.

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