Não é impossível…

Não é impossível…

José Renato Nalini*

06 de maio de 2022 | 15h10

José Renato Nalini. FOTO: DIVULGAÇÃO

…embora seja muito difícil. O despertar da humanidade para a única verdadeira questão que deveria preocupar os seres racionais: a insustentabilidade da vida contemporânea.

Acostumada a se servir dos recursos naturais como se estivesse num supermercado gratuito, do qual tudo se extrai, nada se repõe, a humanidade exauriu as tetas da Terra. Esta emitiu inúmeros avisos. Quando não se fez ouvir, responde como pode: catástrofes climáticas cada vez mais violentas.

O dinheiro, que movimenta as mentes e anestesia as consciências, percebeu que era urgente refrear a insanidade. Existe alternativa ao caos: transitar com celeridade para uma economia de baixo carbono. É por isso que as melhores cabeças do mercado dispõem de mais de quatro trilhões de dólares em ativos no planeta. Essas condutoras do restante da sociedade, refém de um consumismo irracional, sabem que as questões sociais e ambientais afetam o desempenho da economia.

As mudanças climáticas afetam o convívio e, irremediavelmente, afetam as economias. Por isso é que países adiantados avançam nos investimentos para a tecnologia verde, que não só aumenta a produtividade e estimula investimentos consideráveis do setor privado. A dificuldade é fazer esse discurso chegar para governos populistas, que ignoram as crises e só pensam em medidas eleiçoeiras.

A esperança reside, mais do que em outros tempos, na iniciativa privada. Os empresários que sobreviveram à catástrofe de governos despreparados, que só fizeram crescer o gasto público, têm condições de assumir a condução da convivência sob um novo e consistente pacto. Um pacto que leve em consideração a necessidade de se cuidar bem da natureza.

O ambiente está gravemente enfermo. São sinais dessa doença as secas, as inundações, as precipitações pluviométricas excessivas. Disso resultam mortes, deterioração dos espaços insensatamente ocupados porque deveriam ter sido reservados para áreas de amortecimento. A cupidez, a ganância com sua gêmea a ignorância, fizeram do mundo – e do Brasil principalmente – um lugar perigoso para se viver. Isso para os miseráveis, porque os ricos têm sempre condições de se acautelar e de se segregar em territórios blindados, aparentemente incólumes da vingança de Gaia.

A Universidade também tem enorme responsabilidade para que essa cruzada ignore o desvario governamental e assuma o controle das políticas humanitárias que devem presidir as relações entre todas as espécies viventes e os deveres daquelas que podem responder por seu comportamento em relação ao planeta.

Deve a Universidade assumir um papel mais assertivo. Sair de seus feudos confortáveis, naquele ambiente sereno em que se faz pesquisa e é tão encantador entregar-se a elucubrações teóricas, para trazer à sociedade a notícia que a todos interessa: se não houver súbita conversão para salvar a Terra, quem estará em perigo não é o planeta. É a vida humana. A Terra poderá continuar a existir durante período indeterminado de tempo. Só que prescindirá desta espécie cruel que é o bicho-homem para tanto.

Como a Constituição da República não é propriedade do STF, nem do Governo, nem do Parlamento, mas é documento elaborado pelo único titular daquilo que se chama pomposamente de “soberania”, é o momento de mostrar que o povo quis um cuidado muito especial para o ambiente. Está no artigo 225 da Carta Cidadã, que ainda não produziu seus melhores efeitos, porque o Legislativo se preocupa mais com orçamento secreto, Fundões Eleitoral e Partidário e saquear a viúva, obtendo verbas especiais para currais que infelizmente ainda existem.

É a população brasileira que deve exigir o cumprimento exato das disposições fundantes previstas no artigo 225, principalmente a educação ecológica de qualidade. Crianças têm sensibilidade que a geração adulta já perdeu. A juventude também continua idealista e pode assumir essa bandeira, como ocorre com adolescentes de países civilizados.

Falta muito pouco tempo até que não haja mais condições de reagir. Por enquanto, estamos nos últimos minutos da prorrogação. Em seguida, só poderá provir o caos. Um apelo à consciência ecológica é a única estratégia que ainda poderá salvar a humanidade.

Não é impossível, embora assim pareça. Ou será necessário ocorram mais desgraças, multipliquem-se as mortes de inocentes miseráveis, para que os “donos da Terra” se apercebam de que os dias urgem e as horas não retrocedem?

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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