Não custa tentar

Não custa tentar

José Renato Nalini*

06 de agosto de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

O desafio do aquecimento global preocupa os países sérios. União Europeia sofre os efeitos das inundações, idem o Japão e os afluentes do Amazonas, enquanto Austrália e Estados Unidos enfrentam inclemente seca. O Brasil está a vivenciar a pior falta de chuvas em 91 anos.

Embora as medidas necessárias tenham de ser tomadas em escala compatível com a gravidade da questão, é importante lembrar o lema ecológico no seu surgimento: “pensar globalmente, agir localmente”.

Ninguém está dispensado de adotar atitudes amigas da natureza, ao contrário do que fazem algumas autoridades pagas pelo povo para cumprir a Constituição, e que a violentam seguidamente.

Um assunto que incomoda os carnívoros é o elevado consumo de carne que se tornou rotina à mesa dos brasileiros. O Brasil possui mais cabeças de gado bovino do que população humana. Os gases emitidos pelo gado – o metano, principalmente – é muito mais nocivo à atmosfera do que o gás carbônico da frota automobilística.

Não se quer tornar o mundo inteiro vegano. Mas um dia da semana sem carne até que não faria mal. E isso é hoje muito fácil, com o preço que a carne é oferecida ao consumidor.

Chefs conscientes, como Jefferson Rueda, que fez de sua “Casa do Porco” um case, assim como sua esposa, a cheffette Janaína Rueda conseguiu tornar o “Dona Onça” um point gastronômico, já se rendem à tendência ainda tímida de alguns comensais sensíveis.

Jefferson preparou dois banquetes gastronômicos: um onívoro e o outro vegetariano. Talentoso, ele se serviu da imaginação para produzir pratos apetitosos e atraentes. Assim, o sushi de papada com tucupi negro e ameixa em conserva pode não levar porco, substituído por uma tira de cogumelo Titãs. Ninguém diria que o codeguim virou um embutido de berinjela. Há um tartar de nabo, queijo de coalho com goiabada e picles de cebola rosa parece o torresmo de pancetta. Nhoque de batata doce lembra as fatias de porco e é muito gostoso.

Tudo elaborado com a produção própria do Sítio Rueda em São José do Rio Pardo, onde o casal exercita suas habilidades de produtores orgânicos e ecológicos. Essa atitude consciente do casal Rueda é exemplo para aqueles que se comovem com a situação planetária. O mundo tornou-se insustentável e as consequências desastrosas assinalam um porvir borrascoso, que cumpre tentar evitar.

As pessoas atentas sabem que cerca de 14,5% das emissões dos gases geradores do efeito estufa provêm da pecuária. Os dados são fornecidos pela Organização Mundial das Nações Unidas para a Agricultura. Aqueles que têm compromisso com o futuro do planeta adotaram estratégias que reduzem o consumo de carne, conforme observa Danielle Nagase, na página “Comer” de 4.7.21.

Mas a tendência de se evitar a morte dos animais está também no mundo vegano. Hoje há uma crescente produção de cosméticos veganos, utilizados por aqueles que temem pela escalada de insustentabilidade e não querem ter remorsos por serem parte do problema e não da solução.

A empresa Cadiveu Essentials lançou Vegan Repair, numa campanha que tem a cantora Anitta como propagadora de cinco produtos novos, xampu, condicionador, leave in, máscara e beach waves. São fabricados sem uso de matéria-prima animal e não há o emprego de crueldade nos testes. Essa linha de tratamento se apoia nos conceitos “cruelty free”, que significa não se fazer teste em animais e “clean beauty”, beleza limpa. Tudo orgânico, sem utilização de substâncias químicas tais como silicone, parabenos, corantes, óleos minerais e ftalatos, substâncias consideradas tóxicas ao corpo humano. Até as embalagens são recicláveis e feitas de frascos de plástico reutilizado, como informa Juliana Pio, em “Retomada Verde”, Estadão de 4.7.21.

Aos poucos, as mentalidades abertas e não carcomidas pela constante prática do egoísmo, vão percebendo que o mundo pede socorro. Nem sempre se pode continuar a fazer “o que sempre se fez”, quando tão próximas estão as ameaças de exaustão do globo. Envenenar o próprio corpo foi praxe durante muito tempo e as consequências estão aí. Usar animais como se fossem seres desprovidos de vida também. Mas filmes como o curta-metragem “Salve o Ralph”, sobre o coelhinho cobaia de laboratório, dão fôlego à Sociedade Vegetariana Brasileira, que confere o selo Vegano, existente desde 2013, a quem incorporar práticas naturais e de respeito a toda espécie de vida.

Há muito a ser feito e toda pessoa tem condições de fazê-lo. Por exemplo, ter uma composteira em casa. Reciclar e exigir logística reversa das empresas. Cobrar as autoridades que parecem alheias aos repetidos sinais de exaurimento dos recursos naturais. Assimilar o conceito ESG e leva-lo em consideração em todas as atitudes, conhecer mais sobre sustentabilidade e sobre os perigos que rondam a Terra e que põem em risco a sobrevivência de qualquer espécie de vida em sua superfície.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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