‘Não conheço ninguém’, diz operador de contas na Suíça

‘Não conheço ninguém’, diz operador de contas na Suíça

Bernardo Freiburghaus ofendeu reportagem e se recusou a responder sobre denúncias de que ele auxiliou na abertura de contas de ex-diretores da Petrobrás

Redação

16 Abril 2015 | 16h30

Por Jamil Chade, de Genebra

“Não conheço ninguém”. Foi assim que Bernardo Freiburghaus respondeu à reportagem do Estado quando foi questionado se ele conhecia alguns dos ex-diretores da Petrobrás que revelam em delação premiada no Brasil que ele seria o operador que gestionava as contas na Suíça, abertas para receber as propinas no escândalo revelado pela Operação Lava Jato.

Freiburghaus foi citado pelo ex-diretor da estatal Paulo Roberto Costa e pelo ex-gerente da estatal Pedro Barusco, nas delações da Operação Lava Jato, como o homem recomendado para abrir contas na Suíça. No total, o Ministério Público da Suíça já bloqueou mais de 300 contas relacionadas à suspeita de corrupção no Brasil. Segundo as denúncias de Barusco, Freiburghaus era o homem que havia feito a abertura de muitas dessas contas.

Costa diz ter recebido US$ 23 milhões da Odebrecht por meio de transferências para a Suíça. Freiburghaus é peça-chave nessas investigações. Era ele quem operava parte dessas contas na Europa. Segundo o ex-diretor, o próprio diretor da Odebrecht Plantas Industriais Rogério Araújo, teria lhe indicado o operador na Suíça para abrir as contas onde eram recebidos os recursos.

Bernardo Freiburghaus, apontado como operador de propina ligado a Odebrecht, na Suíça / Foto: Jamil Chade

Bernardo Freiburghaus, apontado como operador de propina ligado a Odebrecht, na Suíça / Foto: Jamil Chade

Em seu acordo de delação premiada, Costa indicou que, no dia 13 de setembro de 2012, ele possuía “na conta 1501054, em nome da empresa Quinus Services S.A, no HSBC Bank, o montante de US$ 9.584.302,89 (nove milhões, quinhentos e oitenta e quatro mil e trezentos e dois reais e oitenta e nove centavos de dólares americanos)”. A empresa offshore, segundo ele, foi aberta pelo doleiro Bernardo Freiburghaus e, depois de 2012, o valor foi repartido a outros quatro bancos.

O operador foi convocado pela Polícia Federal para prestar esclarecimentos no dia 5 de fevereiro, mas não foi encontrado no Brasil. Numa carta assinada por sua advogada, Fernanda Silva Telles, endereçada à Polícia Federal do Paraná, o operador é apresentado como “suíço”, “economista” e “residente e domiciliado” em Genebra.

Depois de dias aguardando por sua saída de seu apartamento, a reportagem do Estado hoje pode conversar com o operador, enquanto ele caminhava ao sair de sua casa. Irritado, ele se recusou a falar e ofendeu a reportagem.

“Vocês são uns merdas. Você faz matérias de merda”, declarou. Questionado sobre o fato de que parte das denúncias estão em investigações do Ministério Público, ele apenas declarou: “estão usando vocês.”

O operador não aceitou falar sobre o que sabe da abertura de contas e se recusou a dar sua versão. “Não vou falar nada”, disse. Ao final, quando já cruzava uma ponte em Genebra, a reportagem voltou a perguntar se ele conhecia Barusco. Ele apenas levantou a mão, abaixou a cabeça e, em silêncio, continuou caminhando.

Na carta para para a PF, a advogada que o representa indicou que “após tomar conhecimento de que foi procurado para prestar esclarecimentos”, o cliente informou que poderá ser notificado no atual endereço suíço.

Ainda em fevereiro, a reportagem do Estado foi à sua casa. Uma caixa de correio tem o nome B. Freiburghaus e outra, a inscrição Sr. e Sra. Freiburghaus. A porta foi aberta por uma mulher que, em português fluente, não disfarçou o nervosismo após a identificação do repórter. “Aqui não tem nenhum Bernardo”, disse.

Freiburghaus vive em um dos endereços de maior prestígio de Genebra,  perto dos bancos J. Safra, HSBC, Citibank ou Credit Suisse e às margens do Rio Ródano.

No Rio de Janeiro, ninguém o tem visto na sede de sua empresa, Diagonal Investimentos. “Embora esteja funcionando de forma precária, tendo em vista a expressiva diminuição de seus clientes, a empresa está regulamente constituída no endereço acima declinado”, justificou a advogada.

A Odebrecht nega qualquer relação com esquema de propina ou qualquer ilegalidade.

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