Não compre nossas jaquetas

Não compre nossas jaquetas

Cassio Grinberg*

24 de agosto de 2020 | 06h30

Cassio Grinberg. FOTO: DIVULGAÇÃO

Ao voltar de uma viagem à Patagônia chilena, na década de 1960, um jovem apaixonado por alpinismo e surfe toma uma decisão inusitada: criar uma empresa com o propósito único de não agredir o planeta.

Convencido da má qualidade das roupas e equipamentos para a prática da escalada, ele pretende vender uma jaqueta diferente das fabricadas pelos concorrentes: com uma política de ownership conjunta. Desse modo, quando você compra uma jaqueta, ela passa a ser propriedade tanto sua quanto da empresa dele. Se com o tempo você enjoar da cor, ele ajuda você a vendê-la para que então você possa trocá-la. O mesmo se você engordar, e a jaqueta ficar pequena. Yvon Chouinard, fundador da Patagonia, diz que está no negócio de salvar o planeta. E pede, com todas as letras: compre apenas uma jaqueta na vida.

Se lemos os parágrafos acima enquadrando a iniciativa como “crise de socialismo”, não apenas cometemos o mesmo engano daquelas corporações e também economias que não exercitam o princípio da reciprocidade — mas ignoramos que esta empresa é, hoje, uma marca mundial com vendas anuais de US$ 750 milhões.

Agora, diga a verdade: você já pensou em investir em um banco que pagou bônus com fraude, em uma mineradora que estourou barragens, em uma montadora que manipulou emissões de poluentes, em um frigorífico que misturou papelão com carne ou em uma operadora na qual você paga para entrar e reza para sair — mas nunca pensaria em emprestar dinheiro a um jovem que contratava funcionários com a promessa de que, quando o mar estivesse bom, eles poderiam parar o que estivessem fazendo para ir surfar — desde que depois voltassem revigorados e terminassem aquilo que tinham para fazer.

Talvez devêssemos, especialmente neste momento em que precisamos de novos propósitos. Mas se apenas paramos, pensamos, e nos movemos do estágio da inação para o estágio da pergunta sobre o que precisamos fazer para parar de consumir mal e começar a querer mudar nosso entorno, já demos um grande passo.

*Cassio Grinberg, sócio da Grinberg Consulting e autor do livro Desaprenda – como se abrir para o novo pode nos levar mais longe

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