Não basta ser advogado

Não basta ser advogado

Délio Lins e Silva Jr.*

25 de maio de 2021 | 06h00

Délio Lins e Silva Jr. FOTO: ALEXANDRE MOTA

Melhor desempenho profissional, maior alcance de público (audiência e clientes), a espera de resultados em processos nunca experimentados. Enfrentar a emergência (a ameaça imediata) no nosso caso, hoje, a pandemia da Covid-19, e a urgência (riscos em futuro próximo), cobrar honorários justos e não acumular prejuízos, quebrar. Esses são desafios não só do nosso mercado da advocacia, mas da saúde, da educação e de tantos outros setores. No mundo, estamos todos em momento de autodestruição e reconstrução. Vivemos a ruptura com modelos superados e há caos instalado. Fim de era é isso mesmo! Tem sido assim na história da humanidade: a gestação de algo completamente novo vem a partir de anos de acontecimentos que são como um túnel por onde passamos.

Poderemos chegar do outro lado do túnel perdidos e incompletos ou compreendendo o que ocorre e prontos para o novo mundo. Este século 21, marcado pela comunicação de massa em que não há mais o domínio pleno da emissão de mensagens, mas uma profusão de autores e de palavras conexas e desconexas, é desafiador. Ainda mais e justamente por causa da pandemia que estamos vivenciando.

A missão de dirigentes de instituições como a Ordem dos Advogados do Brasil é hercúlea. Não basta ser advogado! Os profissionais agora têm de ser cientistas de dados, comunicadores, gestores e sobretudo muito tecnológicos.

É para preparar esses novos advogados que a Seccional do Distrito Federal (OAB/DF) decidiu focar e investir no Carreiras TEC, uma formação sem precedentes, inovadora, uma das nossas marcas neste aniversário da Casa, e que tem a proposta de abrir horizontes para a empregabilidade dos profissionais.

Se por um lado o mundo moderno e a economia combalida ceifam posições de trabalho mais tradicionais, por outro, trazem uma infinidade de novas oportunidades em campos que carecem de desenvolvimento.

De olho nesse movimento, estamos desenvolvendo novas competências ligadas ao mundo da tecnologia. Objetivamente, queremos apoiar a jovem advocacia e os profissionais com mais estrada para que tenham não o emprego clássico do século 20 e do início destes anos 21. O que visamos é a empregabilidade: profissionais mais capazes e não dependentes de um único modelo de realização e de fonte de renda. O importante e relevante a dizer e compartilhar é que está dando muito certo!

Foi absolutamente surpreendente o alto nível alcançado pela primeira turma do Carreiras TEC que formamos em abril. Tivemos um início memorável com 70 alunos. Eles trouxeram soluções tecnológicas para questões que chamamos de “dores dos advogados”: rotinas repetitivas, desorganização, baixa performance em resultados, cobranças de honorários que resultam em prejuízos.

Depois de uma parte teórica do curso, tivemos a “mão na massa”, com a elaboração de projeto que são factíveis e já poderiam ser apresentados a escritórios, com custos calculados e respostas eficientes.

A interação das turmas foi incrivelmente boa! Pessoas mais jovens trocando ideias com profissionais mais maduros. Curiosidades e crescimento mútuos. Um gostinho de quero mais ao final do curso. E vai ter! Estamos nos preparando para lançar a segunda turma do Carreiras TEC.

Dos legados que a atual gestão da OAB/DF vai deixar ao final do ano, sem dúvida alguma, o mais relevante é o de avanço tecnológico. Carreiras TEC é uma decorrência do programa OAB Digital, que realiza verdadeira transformação na casa e vem produzindo um legado de inclusão e desburocratização sem precedentes. Já estava no horizonte antes da pandemia e agora ampliamos e aceleramos com as dificuldades do distanciamento social.

Os advogados do Distrito Federal cada vez menos precisam deslocar-se à sede da Seccional. Nas Subseções temos os bons efeitos desse processo potencializado, pois vamos integrando, aproximando e dando autonomia e incentivos a quem está na ponta. O duodécimo (recurso para gestão das Subseções) confere autonomia e independência para quem está na Subseção investir de acordo com prioridades e a realidade da advocacia no local.

Vale destacar que temos buscado os parceiros mais competentes para andar com essa agenda de modernização tecnológica. Para os cursos do Carreiras TEC, oferecidos por meio da Escola Superior de Advocacia do Distrito Federal (ESA/DF), a parceria foi com a Finted e apoio da JusBrasil Academy.

Os tempos são difíceis e há milhares de advogados formados por uma escola muito tradicional do Direito, aquela fundada em um mundo analógico e que não dá mais conta dos desafios do mercado. Por isso, como entidade classista, estamos cumprindo o papel fundamental de apoiar a aprendizagem contínua, algo que veio para todas as profissões.

Ninguém mais poderá se acomodar na conquista de uma graduação que, por si, já é um desafio imenso para a maioria em um país tão desigual quanto o nosso. Entendemos isso para acelerar não em direção aos lamentos, mas às respostas.

O mundo tornou-se é imenso e relativamente pequeno. Impossível absorver por completo o que cabe na palma de nossas mãos, nos celulares. No entanto, desafiamos a esfinge, o “decifra-me ou te devoro”. Estamos decifrando.

Afinal, uma OAB/DF digital e conectada com seus profissionais, também, é mais inclusiva: somos contrários a toda forma de discriminação, agimos nessa caminhada pelas mulheres em pé de igualdade com homens, pelo respeito e cidadania pleno de pretos e pretas. Temos 50% de mulheres em nosso Conselho. Exemplo que será seguido amplamente com a aprovação pelo Conselho da OAB Nacional para que, em novembro próximo, sejam inscritas e concorram chapas que observem paridade de gênero, bem como que respeitem a racial (30%).

A democracia interna e a tecnologia são nossos meios e o propósito é humano. A melhor versão de nós, advogados, para uma sociedade que precisa mais do que nunca validar e confirmar direitos fundamentais, a cidadania.

*Délio Lins e Silva Jr. é presidente da Seccional do Distrito Federal da Ordem dos Advogados Brasil (OAB/DF)

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