Não à corrupção: repudiar é educar!

Não à corrupção: repudiar é educar!

Isabel Franco*

22 de novembro de 2021 | 05h00

Isabel Franco. FOTO: INAC/DIVULGAÇÃO

Na semana passada tive a grata recompensa, ao conduzir uma Avaliação de Risco de corrupção para uma grande corporação,  de constatar uma sutil mudança de mind set na empresa. As mesmas pessoas que entrevistei, apenas dois anos antes,   demonstraram um sensível amadurecimento sobre os riscos de corrupção empresariais. Um alto executivo entrevistado garantiu-me que é a educação que faz a grande diferença em qualquer processo.

É no setor privado onde estão as melhores chances de contribuir com as mudanças culturais, valendo-se do poder social inigualável das empresas de educar, influir e transformar, fortalecendo os valores éticos e morais de seus colaboradores.

Infelizmente, no mundo individual, as pessoas ainda se demonstram insensíveis, anestesiadas! Na semana passada duas ocorrências me deixaram transtornada.

A primeira foi um âncora de jornal, que muito respeito, que riu ao mencionar um certo deputado que usou mais de R$ 150 mil do nosso patrimônio com um tratamento dentário. Independentemente dos argumentos do político de necessitar reconstruir seu sorriso com uma bela dentadura – esse não é o ponto. O ponto é rirmos ou fazermos piadas de algo tão sério. O âncora estava rindo em cadeia nacional na frente de milhões de brasileiros, com audiência de crianças, jovens e toda sorte de cidadão.

Essa atitude deseduca! Estamos rindo de nós mesmos e ensinando gerações a rir desse caos.

A segunda atitude foi de um certo senhor do mundo jurídico que fez um comentário desrespeitoso, machista e etarista,  em interjeição discriminatória contra uma mulher de competência e cargo invejáveis. Ao invés de honrar sua posição, esse sujeito acabou envergonhando seus pares ao demonstrar não conseguir conviver com a proximidade de mulheres fortes, de inteligência e maior capacidade que ele mesmo. E muitos riram…

Assistimos a essas barbaridades incômodas, que nos causam tanto desconforto, que nos atingem diretamente no estômago. São atitudes inconsequentes, descomprometidas, mas muito ofensivas. E essas pessoas não se sentem responsáveis quando riem de atos que se configurariam em flagrante delito em qualquer país de primeiro mundo!

O Brasil tornou-se um palco de horrores. Assistimos à aceitação e banalização do mau comportamento. Não tem graça,  é uma maldição nacional não nos levantarmos de imediato e repudiarmos veementemente essas atrocidades.

Toda essa minha indignação é por sentir que as pessoas não reagem contra essas crueldades culturais. Ou, então, só reclamam “dos outros”, dos políticos, das empresas, do governo, como se não fosse nada com elas.  Aqui a corrupção é banalizada, é dos outros, não nossa. Esse assunto tem de vir à nossa profunda reflexão, individual e coletiva.

O que mais me entristeceu na semana passada foi a divulgação da pesquisa da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), e do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), em parceria com o Sebrae. Revelando que 3,4 milhões de internautas, ou seja, uma em cada cinco vítimas, ao serem entrevistados sobre fraudes virtuais sofridas nos últimos 12 meses, admitiram ter agido de forma ilícita, contra outras pessoas, empresas ou o governo, para levar vantagem financeira.

A pesquisa afirma que 19% dos entrevistados cometeram irregularidades como o uso de “gato” em TV por assinatura, banda larga, luz e telefone. Outros 15% declararam, que, para pagar menos, alegam que o produto comprado foi anunciado com um preço menor. Alguns 14% consumem mercadorias dentro do estabelecimento e não pagam pelo produto. Pior, 14% cancela compra na internet após ter recebido sua encomenda.

Isso é uma aberração: as próprias vítimas promovem a ilicitude. Onde estamos? A corrupção está fazendo muito mal à nossa psique. O brasileiro tem de refletir sobre a sua responsabilidade individual com a ética em suas relações pessoais, profissionais e de consumo. Levar vantagem sobre os outros onera toda a sociedade e gera o efeito dominó.

A corrupção é uma das piores injustiças do Brasil.  A ação dos que querem levar vantagem, daqueles que riem ou olham para o outro lado, é uma força subliminar de deseducar, incentivando a cultura perniciosa da corrupção, do sexismo, da violência e tantas outras sórdidas mazelas.

Por outro lado, no mundo público, a frente da impunidade é extremamente eficaz! Assistimos perplexos a promulgação da nova lei de improbidade, que estimula o nepotismo em todas as esferas do poder não mais prevendo a punição para atos culposos de improbidade, ou seja, aqueles sem a intenção de cometer a irregularidade. Quem já viu um agente público agir sem intenção de cometer uma irregularidade?! Agora, os danos causados por esses agentes com culpa (por imprudência, imperícia ou negligência) não mais serão enquadrados como improbidade. Esses agentes estão  rindo sozinhos porque, não havendo prova sobre a  intenção deles de lesar o patrimônio público, não se configurará qualquer ilícito.

Ficamos estarrecidos. Neste mundo do mal, quem cala, consente. Quem se omite, quem ri, admite, permite, torna-se conivente. Não há algo mais abominável que essas atitudes ou omissões, seja por temor ou por covardia: pois resultam na passividade e na conivência.

A omissão dos bons é a ruína da sociedade!  O ativismo é uma forma de educar. E a educação é a base de tudo. A conscientização é o primeiro passo que leva ao amadurecimento que vemos nesses inacreditáveis vídeos filmados na Suécia, Dinamarca e Finlândia que circulam no WhatsApp.

Muitos me perguntam “quem sou eu para fazer qualquer coisa contra a corrupção no Brasil?”. Cada pessoa é tudo, é todos, é o cidadão, a sociedade civil! Todos têm de ter atitude! Temos de exercer e fortalecer o músculo do combate à corrupção.

Cada um de nós deve fomentar uma ojeriza à corrupção corriqueira. O combate à corrupção começa com cada pessoa. Somos responsáveis por educar gerando cidadãos de tolerância zero à falta de ética.

Atitude é tomar partido, soltar a voz, ter coragem, reclamar mesmo, contribuir e fazer a diferença!  Diga NÃO a qualquer atitude que facilite a corrupção. Tome seu lugar na sociedade: EDUQUE!

*Isabel Franco, advogada sócia da área de Compliance, Investigação e Penal Empresarial do Azevedo Sette Advs. Especialista em legislação anticorrupção. Com mestrado pela Fordham University (NY), é embaixadora do CWC – Compliance Women Committee, conselheira do Instituto Não Aceito Corrupção, fundadora da Mesa-Redonda de Compliance e membr

Este texto reflete única e exclusivamente a opinião do(a) autor(a) e não representa a visão do Instituto Não Aceito Corrupção

Esta série é uma parceria entre o blog e o Instituto Não Aceito Corrupção (Inac). Acesse aqui todos os artigos, que têm publicação periódica

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