Najila e Neymar: o conto de fadas que acabou antes mesmo de começar

Najila e Neymar: o conto de fadas que acabou antes mesmo de começar

Emanuela Carvalho*

13 de junho de 2019 | 06h00

Neymar. FOTO: LUCAS LANDAU/REUTERS

Falar em conto de fadas nos dias atuais pode parecer esquisito, mas há por aí milhares de exemplos que comprovam que o complexo de cinderela está mais presente da vida das mulheres do que imaginamos.

Primeiro não é fácil ser mulher. Mas o espaço aqui não é para lamentações e sim para levantar questões e respostas. A mulher é cobrada das mais diversas formas: precisa ser mãe, precisa casar, precisa ser independente e ter uma carreira de sucesso, precisa se cuidar, estar bonita, ser magra, seguir o padrão de beleza estipulado por “não sei quem” criticado diariamente, mas vigente.

Mas ao mesmo tempo em que a mulher precisa ser independente, ela também não pode ser tão independente assim, senão ela pode assustar os homens, ficar solteira para sempre, ser chamada pelas vizinhas de sapatão e mais um monte de bobagens que, na prática, não fazem a menor diferença, mas quase ninguém tem paciência para ouvir.

A questão então é: onde entra nesse contexto a fugaz história entre Najila e Neymar? Na verdade, a história mesmo só aconteceu depois, ou até antes, virtualmente, mas durante, foi tudo tão rápido que é possível resumir em um parágrafo.

Deixando claro que não há o objetivo de julgar os envolvidos. Nem de afirmar se houve estupro, um assunto muito sério e delicado, que precisa ser discutido. Isso ficará sob responsabilidade da justiça, apesar de o tribunal da internet já ter se adiantado no veredito. A função é explicitar, de forma superficial – porque não há testemunhas do ocorrido – os impactos das expectativas excessivas de algumas mulheres em relação aos homens.

Para tantas mulheres imagine como é trocar mensagens pelo celular com alguém tipo Neymar. Um ídolo mundial, rico, famoso, bonito (levando em conta o quesito gosto pessoal). Bastou trocar uma foto pelo aplicativo e pronto, você conseguiu chamar a atenção do cidadão que deve ter milhares de mulheres à disposição (que coisa difícil de escrever, mas é verdade, quantas de nós mulheres já estivemos, em algum momento, à disposição de alguém?).

E o quão importante essa mulher vai se achar se de repente, esse “cara” pagar uma passagem para Paris, com hospedagem?

É claro que muitas de nós já conquistaram independência emocional suficiente para saber que melhor do que ir a Paris com tudo pago por alguém é ir a Paris com tudo pago por nós mesmas, através do próprio trabalho, mas… e quem não consegue – ainda – ver as coisas dessa forma? E quem imagina que é um privilégio, uma sorte grande, ser sustentada por um homem, que faz isso porque a ama loucamente e não porque a trata como objeto ou quer controlá-la?

Sim, fica claro através das conversas entre os dois que existe ali uma relação homem-objeto.
E sem questões morais, a mulher afirmou categoricamente que tinha o objetivo de manter relações sexuais com ele – e até aí, total controle sobre si, o seu corpo e as suas vontades – mas até a página cinco, quando depois do primeiro encontro, a carência deixa clara a dependência pelo próximo momento com ele, a quem ela define como abusador. Mas se doeu, machucou, por que querer vê-lo novamente?

Vários ensinamentos ficam nessa história e não seria capaz de trazê-los todos a esse texto, mas o principal deles é reconhecermos as armadilhas em que nós mesmas nos colocamos. Não existe príncipe encantado! Se o homem quer sexo e eu quero sexo – apenas – ok! Mas eu estou emocionalmente preparada para lidar com isso? Se eu estou, a vida será um parque de diversões e eu seguirei sem nutrir sentimentos por ninguém, mas se eu não estou, colocarei nesse “somente sexo” as expectativas de um vínculo afetivo que não virá. Eu preciso aprender a ser mulher e não objeto, mesmo que não queira me apaixonar.

Estar na posição de objeto de alguém é avassalador. É estranho ver que o outro faz com você aquilo que, consciente e verbalmente você não permite, mas inconscientemente você aceita, talvez porque acha que mereça, e isso só uma profunda análise psicológica dirá.

Mulheres: vamos continuar lutando pela liberdade, pela oportunidade de viver de acordo com os nossos desejos – e eles não precisam estar atrelados aos desejos dos outros. Vamos colocar em prática o ditado “não posso ser a mulher da sua vida, porque já sou a mulher da minha” e analisar, cautelosamente, onde colocamos as nossas fichas… Porque nem todo jogo vale a pena. E nesse caso, mais diretamente falando, nem todo jogador também.

*Emanuela Carvalho, professora e autora dos livros A Terceira Pessoa Depois de Ninguém e Antes Feliz do que Mal Acompanhada

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