Nada mais será como antes, nem a Educação

Nada mais será como antes, nem a Educação

Alessandra Borelli*

22 de abril de 2020 | 08h00

Alessandra Borelli. FOTO: DIVULGAÇÃO

E então, como medida imediata para contenção da disseminação da covid-19 e sem que ninguém pudesse estar preparado para essa inusitada situação pela qual todos, sem qualquer tipo de distinção, passamos, o isolamento social invadiu a realidade de milhões de pessoas, moldando novos hábitos e trazendo à tona oportunidades pessoais e profissionais inimagináveis em meio a rotina frenética que vínhamos “vivendo”.

A criação de um novo modelo pedagógico tornou-se um grande desafio para escolas e universidades, que em uma corrida contra o tempo e sob pressão de todos os lados, buscam implementar e adequar-se às ferramentas necessárias para um ensino, agora, exclusivamente à distância, causando grande impacto na rotina de alunos e professores, sobretudo, se considerarmos as respectivas diferenças econômicas, sociais e culturais que permeiam todas as sociedades.

Mas o que se tem notado é que a questão vai muito além do campo pedagógico, já que o impacto também tem alcançado executivos e o universo corporativo como um todo. Não por acaso, além da iniciativa individual pela procura de cursos à distância, observa-se também um aumento exponencial de empresas implementando o que chamamos de capacitações nas modalidades “presencial à distância” e e-learning, por meio das quais, além de manter seus colaboradores engajados, os mantém atualizados sobre determinados assuntos, legislações e normativos inerentes ao ramo de suas atividades.

O fato é que estamos em isolamento, mas podemos escolher entre mergulhar no caótico e cheio de incertezas dilúvio informacional relacionado ao vírus ou estudar, e com isso, praticar a resiliência valendo-se da flexibilidade que o momento exige e propicia para atualizar-se com cursos que outrora não dispunha de tempo pra fazê-los. Essa última opção é, sem dúvida, além de producente, uma excelente estratégia para preservação da saúde mental.

São tantas as mudanças impostas diante das circunstâncias, que estudar, colocar-se e sentir-se em condição de aprender tem sido terapêutico, não somente para crianças e adolescentes, mas principalmente adultos, independente da profissão e posição que ocupam.

Se bem planejado e implementado, um programa de educação à distância pode garantir experiências e aprendizados muito além do que o conteúdo em si é capaz de transmitir. Isso porque o método pode também desenvolver novas e importantes habilidades, como disciplina, melhor organização do tempo, foco, concentração, análise crítica, entre outras.

Arlette Guibert consultora da Abed (Associação Brasileira de Educação à Distância) entrevistada pelo site UOL, traz elucidações sobre o EAD afirmando que “o ensino a distância proposto por instituições de ensino competentes pode requerer muito mais trabalho do que em uma sala de aula presencial. Para que você assimile o conhecimento, tem de se programar, ter disciplina, assumir o compromisso de estudar com autonomia, gerenciando seus horários”. Assim, com a junção dessas características com outras essenciais já esperadas em um bom profissional (estratégia, disciplina e comprometimento) percebe-se que essa alternativa de aquisição de conhecimento pode ser perfeitamente viável também ao cotidiano profissional e corporativo.

Naturalmente, para que os objetivos propostos sejam, de fato, alcançados (ou talvez superados. Por que não?) é preciso estabelecer importantes critérios quando do planejamento. Como exemplo, temos perfil, reputação e notoriedade da instituição, assim como dos docentes que realizarão as instruções dos cursos, ferramentas utilizadas para a transmissão, objetivo, conteúdo programático e metodologia aplicada durante o curso, política de privacidade adotada pela instituição, possibilidades de customização de conteúdo e abordagem, considerando a necessidade e perfil do público, além de outras questões inerentes ao segmento da empresa.

A Educação à Distância (EAD) é uma realidade antiga no mundo e no Brasil. Em 1995 foi criado o Centro Nacional de Educação a Distância. No ano de 2005, a educação a distância foi conceituada oficialmente no decreto nº 5.622 de 19 de dezembro. Fora seu efetivo reconhecimento e regulação, essa já era uma realidade acessível desde meados do século passado, seja por seu uso através de materiais de estudo via correios, seja por participação nos famosos telecursos, possivelmente uma forma bem mais viável de capacitação, principalmente quando focada à época, a parcela adulta mais carente da população.

No entanto, apesar de toda essa trajetória do EaD, até poucos dias atrás tal modalidade era bem menos considerada em comparação aos cursos presenciais. Contudo, diante do cenário de pandemia, quem não conhecia passou a conhecer; quem tinha preconceito, a se render; e quem tinha dificuldade para manusear, a aprender. Isso tudo porque “é o que temos pra hoje” e ponto.

Fato é que por mais que o mundo já estivesse seguindo a trajetória de evolução acelerada para uma era digital, a disseminação da pandemia da covid-19, em caráter absolutamente global, forçou de maneira imperativa o isolamento social como forma de prevenção ao contágio, provocando, consequentemente, rupturas na cultura dos nossos hábitos, atividades e pensamentos.

O universo corporativo, certamente um nicho sensível às evoluções tecnológicas e inovações, entendeu a premente necessidade de adaptação ao cenário imposto. Seguindo essa tendência, a reflexão de Sérgio Rial, presidente do Banco Santander Brasil, em recente entrevista à revista Exame, ilustra um pouco do momento pela qual passamos: “Tenho dito que o coronavírus encerra a era industrial. Porque todas as esteiras e os processos que podem ser automatizados serão, claramente a partir de agora, resolvidos remotamente, dando uma conveniência à sociedade moderna que na era industrial nunca tivemos”. Essa é uma compreensão que tende a se estender exponencialmente quando também olharmos a necessidade e oportunidade que oferece a educação à distância, principalmente no aprimoramento e reciclagem profissional.

Não, nada mais será como antes. E sim, sentimos falta do intervalo na escola, da faculdade, da rotina do escritório, de empurrar o carrinho no supermercado, da conversa paralela em sala de aula, das reuniões e cursos presenciais, do esperado coffee break e de muitas outras coisas. Tudo tem o seu valor e continuará a ser assim. Mas, inevitável e forçosamente, conhecemos inúmeras vantagens de uma parte da evolução das novas tecnologias que muitos de nós resistia experimentar.

Sendo assim, quando voltarmos à “normalidade” – sim, tudo ficará bem – nada mais será como antes, já que, no mínimo, teremos aprendido a avaliar o que, de verdade, precisa ser presencial e o que – como a educação-, pode funcionar muito bem nas modalidades virtual ou à distância.

*Alessandra Borelli, advogada especialista em Direito Digital, sócia e CEO da Opice Blum Academy e da Nethics Educação Digital

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