Nação das décadas perdidas?

Nação das décadas perdidas?

Fernando Valente Pimentel*

31 de maio de 2019 | 14h00

Fernando Valente Pimentel. FOTO: DIVULGAÇÃO/ABIT

O baixo desempenho da economia brasileira nos últimos anos evidencia a necessidade de mais sintonia por parte da sociedade e dos poderes constituídos para que seja efetivado um consistente projeto de nação para os próximos 20 anos, definindo-se metas e meios para que possa ser levado a cabo. A situação dificilmente melhorará se continuarem sendo discutidas questões estéreis, sem relevância e que fujam do foco de superação da armadilha da renda média na qual estamos enroscados e com graves riscos de retrocesso ainda maior.

Há toda uma expectativa da população e um agudo sentimento de urgência por parte dos mais de 13 milhões de desempregados, empresários e trabalhadores pressionados pela estagnação dos negócios. Não há como postergar soluções, sob risco de termos mais uma década perdida, como se está configurando a atual (entre 2011 e 2018, nosso PIB patinou na média de expansão de 0,59% ao ano). Aliás, analisando-se o desempenho econômico nacional num espectro mais amplo de tempo, verifica-se que os resultados estão muito abaixo de nosso potencial.

Nas últimas três décadas, o crescimento da renda per capita foi de 25%, ou 0,76% ao ano, resultante dos seguintes indicadores anuais: crescimento do PIB de 2,2% e aumento da população de 1,43%. Na economia mundial, a expansão do PIB foi de 3,7% e nos países emergentes, acima de 5% ao ano. Se tivéssemos evoluído pelo menos 4% por exercício, nossa renda per capita teria dobrado. A baixa performance não advém de uma conspiração contra o Brasil. Trata-se de algo que expõe nossos próprios erros. Podemos fazer muito mais. Na década de 50, nosso PIB avançou acima de 7% ao ano e na de 70, 8,6%. Pode-se argumentar que os cenários globais e regionais eram outros, mas também havia graves problemas, aqui e no Planeta. Porém, não ficamos letárgicos.

Nos últimos 30 anos, posicionamo-nos aquém do mundo até mesmo nos inegáveis avanços verificados, como no controle da inflação, com o advento do Plano Real, na infraestrutura (telefonia, energia e transportes urbanos), universalização das matrículas no ensino público, estruturação do Sistema Único da Saúde (SUS) e aprovação de leis importantes (Estatuto dos Idosos, da Criança e do Adolescente, igualdade de gênero, Responsabilidade Fiscal etc.). Poderíamos ter feito muito mais e melhor, considerando a persistente precariedade da educação, da assistência médico-hospitalar, dos transportes, da logística, do custo e oferta de eletricidade e do imenso rombo fiscal acumulado, por exemplo.

Portanto, precisamos, definitivamente, aprender com os erros da história. Nesse contexto, são urgentes: reformas da Previdência e tributária; desburocratização do Estado e da economia; aumento da segurança jurídica; maior oferta de crédito, com custos compatíveis com o retorno dos investimentos produtivos; e adoção de políticas públicas eficazes e vigorosas para crescermos de modo proporcional às nossas potencialidades. Estamos ficando encurralados em nossos próprios labirintos e armadilhas, sufocando atividades fundamentais para nossa recuperação e desenvolvimento.

É o caso da indústria de transformação, que tem participação de 11% no PIB nacional, mas é responsável por 36% das exportações, 63% dos investimentos em P&D na iniciativa privada, 24% da arrecadação de tributos federais e 17% da previdenciária. Empregando quase sete milhões de trabalhadores (cerca de 15% das vagas formais no País), paga os melhores salários e é o setor com o melhor retorno para a renda produzida: cada real gera R$ 2,63, ante R$ 1,66 na agricultura e R$ 1,49 no comércio e serviços. Não se trata de desmerecer nenhum setor e os números apresentados são somente uma constatação. Aliás, seria importante aposentarmos algumas ideias que sugerem um confronto entre setores, pois, na verdade, o Brasil apresenta potencial para ter indústria, agricultura, serviços e comércio fortes. Ademais, é importante a consciência de que há enorme inter-relação entre as distintas áreas de atividade.

Os dados da manufatura, cuja participação no PIB vem caindo sistematicamente, demonstram com todas as letras o potencial brasileiro, que somente será capitalizado se corrigirmos os erros do passado e do presente, pensarmos em questões realmente importantes, relevarmos as questiúnculas e estabelecermos uma agenda sinérgica para o desenvolvimento. Caso contrário, corremos o risco de ser a nação das décadas perdidas. É melhor trabalharmos com rapidez e eficiência, enquanto é possível, pois o mundo não vai parar e esperar que resolvamos nossas contradições.

Parafraseando o saudoso Betinho, os desempregados e suas famílias têm pressa, ao mesmo tempo em que precisamos fazer com que o País do Futuro realmente construa e alcance o amanhã de prosperidade desejado por sua população, para o qual tem pleno potencial.

*Fernando Valente Pimentel é presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit)

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