Na política é diferente, não se sabe quem é quem

Na política é diferente, não se sabe quem é quem

Delegado Palumbo*

17 de junho de 2022 | 14h05

Delegado Palumbo. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

A dificuldade é que os inimigos são diferentes. Na carreira policial o sistema é mais transparente. O bandido quer matar o policial e o policial quer prendê-lo. Eles não se sentam à mesma mesa e se mantêm distantes um do outro. Na política é diferente. Não se sabe quem é quem. Muitos te abraçam, fingem ser amigos, te chamam para jantar e em seguida planejam seu mal.

Minha rotina no combate à corrupção é fiscalizar serviços públicos municipais e ir atrás de contratos firmados entre a Prefeitura e empresas. Por exemplo, cito o caso de um contrato de R$ 32 milhões, sem licitação, durante a pandemia, onde ninguém explica (Prefeitura e Secretaria da Saúde) o valor de cada consulta. Fiz a denúncia no Tribunal de Contas do Município (TCM) e Ministério Público e, pelos nossos cálculos, cada consulta sai por mais de R$ 1 mil, ou seja, desproporcional, absurdo e, talvez, criminoso.

Uma das armas internas da Câmara é a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), visando investigar empresas que atuam no transporte coletivo da capital. Para isso, são necessárias 19 assinaturas de um total de 55 vereadores, mas nem todos os parlamentares têm interesse em investigar alguma coisa.

Espero que a CPI avance pelo bem da cidade. Eu propus e quero uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar o crime organizado, a infiltração do PCC em setores do transporte público de São Paulo. Empresas de ônibus reclamam que estão sempre no prejuízo, mas não largam o osso, ou seja, nunca vi empresa que não dá lucro continuar no mercado por tanto tempo. Alguma coisa está errada. É fácil viver de subsídios bilionários oriundos de dinheiro público. Não há uma devida e efetiva fiscalização, não sei se por medo (do crime organizado) ou conivência. E é isso que precisamos descobrir na CPI.

Eu levo meu mandato de forma independente. Não vislumbro ter ingerências, tampouco escolher secretários, chefes de gabinete e subprefeitos, por isso tenho livre arbítrio de votar de acordo com minhas convicções, sem medo de perder cargos ou secretarias. Todo parlamentar deveria agir assim. Há mais de 5 mil cargos em comissão na cidade de São Paulo e muitos deles advêm de apadrinhamento político. Não faço e me recuso a fazer a velha política do “toma lá, da cá” para ser subserviente ao prefeito. Eu sirvo o povo e não os políticos. Não quero cargos e secretarias. O papel do vereador é fiscalizar, e é justamente isso que estou fazendo.

*Delegado Palumbo (MDB) é vereador da Câmara Municipal de São Paulo, delegado (afastado) da Polícia Civil, autor da proposta de criação da CPI para investigar a ação do PCC no transporte público paulistano

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