Na crise sanitária brasileira, a inexorável realidade frente ao pensamento desejoso

Na crise sanitária brasileira, a inexorável realidade frente ao pensamento desejoso

Jeanfrank T. D. Sartori*

24 de março de 2021 | 07h00

Jeanfrank T. D. Sartori. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Em um conhecido vídeo de 2018, o bilionário Elon Musk (de empresas como Tesla e SpaceX) externalizou uma importante lição: “Um dos maiores erros que as pessoas geralmente cometem, e eu sou culpado disso também, é o pensamento desejoso. Sabe, como se quisesse que algo fosse verdade, mesmo que não seja. Você ignora a realidade, por causa do que quer que seja verdade. Esta é uma armadilha muito difícil de evitar”.

Na citação acima, o termo “pensamento desejoso” é uma das traduções possíveis para a expressão idiomática em inglês “wishful thinking”, cujo sentido a própria continuação da fala do empresário esclarece. Mas ela vai além do mero pensamento, uma vez que produz ações, decisões e comportamentos que se alinham com o que a pessoa gostaria que fosse real, e não com aquilo que efetivamente é.

Se essa é uma armadilha difícil de escapar, tal perigo é ainda maior e mais crítico em momentos que fogem da inércia do cotidiano, em circunstâncias novas e especialmente nas graves, como indubitavelmente é o caso do enfrentamento da atual pandemia da Covid-19 no Brasil. E a realidade não se apresenta necessariamente de forma explícita, mas ela sempre dá os devidos sinais e indícios que precisam ser explorados e refletidos por aqueles que verdadeiramente a buscam. É necessário seguir as pistas, em um autêntico estilo Sherlock Homes da vida real.

Mas isso dá trabalho, exige tempo, dedicação e uma mente disposta a eventualmente encontrar aquilo que não gostaria, e tomar ações com base nos resultados – por vezes saindo da normalidade e da inércia – é ainda mais laborioso. É muito mais fácil acreditar que “não é nada”, que “vai dar tudo certo” e que “não precisa se preocupar”. E “vida que segue”, expressão triste e sombria que tive o desprazer de ouvir, inclusive de amigos e familiares, como se pouco importasse as tantas mortes diárias e que o relevante mesmo é a busca pelo interesse e necessidades individuais, independente dos impactos nos demais.

Alguns alegam que a China teria ocultado informações ao mundo, mas por outro lado a realidade não nos privou das devidas evidências amplamente divulgadas: lockdown duro e longo, dois hospitais construídos em 15 dias, monitoramento das ruas com drones etc. Eles não precisavam ter dito que era algo grave, bastava observarmos a forma como eles reagiram ao vírus. Do mesmo modo, sempre se soube que se tratava de uma doença respiratória severa, mas ainda assim levaram-se preciosos meses, especialmente no Brasil, para se “descobrir” o óbvio: que a máscara é um instrumento eficaz de proteção. Ora, por que os médicos sempre usaram máscara para atender os pacientes de Covid-19? E se respiramos pela boca e nariz, qual seria a dúvida, me perguntei por muito tempo, já com minhas máscaras compradas em janeiro de 2020, debaixo da gozação de amigos e parentes. E ainda hoje observamos muitos que inexplicavelmente se recusam a usá-las ou as usam de modo inadequado.

Ainda por um precioso tempo, que também poderia ter sido aproveitado para os devidos preparativos, ficamos conjecturando se o vírus chegaria aqui – mesmo já estando evidente que ele se espalhava rapidamente pelo mundo – e se realmente ocasionaria algum problema relevante nestas terras tupiniquins, listando infundados e ilusórios argumentos que nos dariam alguma suposta característica especial, desde o clima mais quente até algumas crenças de cunho religioso, passando por lendas como a de que “o brasileiro precisa ser estudado pela Nasa” (ainda que talvez fosse de maior interesse da psiquiatria do que da agência espacial americana).

Posteriormente, com a crise já instalada, ficamos reiteradamente decretando que a pandemia estava no fim, que já era possível retornar à normalidade, ainda que todas as evidências mostrassem o contrário. Em outras palavras, prevaleceu o pensamento desejoso de que seria ótimo que já estivéssemos bem e que já houvéssemos superado a pandemia. E aí todo tipo de “argumento” foi evocado para defender interesses políticos, pessoais e econômicos, com isso impondo-se, goela abaixo dos fatos, o precipitado “libera geral” – ao invés da busca pela compra antecipada de tantas vacinas quanto possível, único meio que poderia realmente permitir o retorno à normalidade. E se temos novas e piores cepas (variantes), foi porque deixamos o vírus se transmitir e se reproduzir livremente, o que sabidamente implicaria em um ritmo e em uma quantidade maior de mutações.

Ficamos por tanto tempo discutindo o falso dilema entre a economia (às vezes sob o apelido mais bonito de emprego) e a saúde, ainda que não haja trabalho, nem renda para cadáveres – o leitor me perdoe a expressão funesta, mas infelizmente é preciso que se diga, em nome das quase 300.000 famílias brasileiras enlutadas –, enquanto aqueles que sofrerem financeiramente como consequência da crise poderão se reerguer no pós-pandemia. E nenhum exemplo é melhor do que o de Manaus quando, em dezembro último, houve protestos nas ruas pela reabertura do comércio (sob sombrios aplausos e incentivos de alguns políticos e empresários), e já em janeiro e fevereiro viu-se o triste e previsto colapso, com o irreparável dano à vida e à própria economia. E essas funestas consequências não foram sentidas apenas lá, mas em todo o Brasil que agora sofre ainda mais com a variante nascida nesse caos sem lógica, uma tragédia anunciada que também fechou ainda mais as portas do mundo para nós.

Esses são apenas alguns exemplos das inúmeras vezes, em pouco mais de um ano de pandemia, que tentamos brigar com os fatos e produzimos várias desculpas para justificar comportamentos erráticos e sem nexo algum. Negamos a realidade e deixamos de agir com base nela e neste período em que infelizmente temos batido recordes após recordes de novos casos e mortes, colapso nos sistemas de saúde – público e privado – e curvas epidemiológicas assustadoramente exponenciais, ficam evidentes outras duas importantes lições: mais cedo ou mais tarde, queiramos ou não, a realidade é inexorável e se impõe. E a pior maneira de enfrentar um problema é fingir que ele não existe ou minimizar sua efetiva gravidade.

*Jeanfrank T. D. Sartori, doutorando, é mestre em Gestão da Informação pela UFPR, especialista em Business Intelligence pela Universidade Positivo e bacharel em Administração pela UFPR. Atua como consultor nas áreas de TI e análise de dados

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