Na batalha das vacinas, as instituições agem para apoiar indígenas e garantir imunização

Neluce Soares*

24 de fevereiro de 2021 | 03h30

Faz quase um ano que o Brasil vive sob o domínio da Covid-19. A pandemia parece não ter fim e as dificuldades que são geradas por causa dela se multiplicam. Entre os povos indígenas, o coronavírus veio se somar às várias lutas por sobrevivência que há tantos anos são a tônica das comunidades. Quando a vacina foi anunciada e indígenas estavam entre os prioritários no programa de vacinação, parecia que uma luz no fim do túnel. Mas não é bem assim.

Desde o anúncio da vacinação foram várias as batalhas. A primeira delas eram as vacinas que não chegavam e, quando chegaram, eram em quantidade menor do que a anunciada. Iniciou-se então a luta para que viessem ao menos as vacinas prometidas. Mas não havia requisitos básicos para o manejo até o interior da Amazônia. A logística de acesso as aldeias são difíceis e as organizações da sociedade civil é quem tem sido um grande reforço para que as vacinas efetivamente cheguem. A Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé de Rondônia, por exemplo, comprou caixas de isopor para levar as vacinas para o interior, além de máscaras e álcool gel.

Outra dificuldade foi a disseminação de fakenews – alguns grupos, entre eles de religiosos, espalham várias mentiras, entre elas que a vacina vai mudar a genética, que os indígenas vão pegar outras doenças, como Aids. O IEB (Instituto Internacional de Educação), que atua com indígenas no sul do Amazonas, busca levar informações por meio de cartilhas, podcasts. Também envia vídeos e mensagens em grupos de whatsapp com relatos de quem tomou a vacina e está bem. O Instituto Kabu e a Associação Floresta Protegida que atuam no Xingu, fizeram vídeos informativos e um levantamento das principais dúvidas sobre a vacinação relacionadas às fakenews e produziram um podcast com duas edições sobre o assunto. É a luta da verdade contra a mentira.

O embate não para aí. Em Manaus, o Idesam tenta suprir a necessidade de insumos hospitalares, com prioridade aos materiais de terapia respiratória. E desde o início da pandemia, o instituto criou o Resgatão do Bem, uma iniciativa para atender a população que vive no Parque das Tribos, que contempla 38 etnias indígenas, mais de 500 famílias, com cerca de 2000 pessoas. Também distribuíram mais de 10 mil máscaras para a CASAI Oriximiná e FOIRN.

A FOIRN e o ISA têm um papel fundamental no suporte e assistência as comunidades indígenas do Alto Rio Negro, articulando para buscar melhorias no atendimento e aquisição de equipamentos. Importante lembrar:  o diretor da FOIRN, Isaías Pereira Fontes, da etnia Baniwa, faleceu na tarde de segunda-feira, 1º de fevereiro, em Manaus, onde estava internado lutando contra a Covid-19.

O objetivo principal dessas organizações é trabalhar com os povos indígenas no foco ambiental para manter a floresta em pé. No entanto,  as condições de saúde e sanitárias na Amazônia, que já são precárias, se potencializou com a pandemia. São essas organizações que estão de fato atuando nesses territórios e que unem esforços para a chegada da vacina.

O potencial de trabalho integrado, que soma esforços e otimiza recursos é o objetivo de uma rede maior de ações colaborativas pela Amazônia em pé, que formam a rede LIRA. Ações contra o desmatamento é nosso foco de atuação, pois o desequilíbrio em um ecossistema como o da Amazônia pode provocar o surgimento de novas doenças, sem que tenhamos conhecimento para lidar com elas.

*Neluce Soares, coordenadora executiva – Projeto LIRA

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