Muro de Berlim, 11/9 e covid-19

Muro de Berlim, 11/9 e covid-19

Se a mudança de ordem pós-1989 teve caráter geopolítico, e a de 2001 redesenhou a segurança internacional, a ordem de 2020 impõe nova agenda sanitária

Christian Lohbauer*

28 de maio de 2020 | 09h00

Christian Lohbauer. FOTO: DIVULGAÇÃO

Nas últimas décadas a humanidade vivenciou três acontecimentos que transformaram para sempre o seu destino: a queda do Muro de Berlim, em 1989; o ataque às Torres Gêmeas, em Nova York, em 2001, e a pandemia do novo coronavírus, em 2020. Os três acontecimentos têm algumas características em comum. Nenhum analista ou estudioso chegou a imaginar, pelo menos com alguma exatidão, que tais eventos poderiam ocorrer. Os três acontecimentos se assemelham também pelo impacto direto e indireto que tiveram e terão em todos os países, na política e na economia como um todo, e, como consequência, na vida de todos os indivíduos onde quer que estejam. A vida em sociedade teve de ser repensada, e as nações perceberam que esses eventos significaram a despedida de uma maneira de se relacionar, a necessidade compulsória de entender o mundo de uma forma diferente.

A queda do Muro de Berlim não foi a simples retirada de uma barreira que dividia uma cidade, mas, sim, o fim de um sistema geopolítico que durara mais de quatro décadas. O sistema internacional bipolar, dividido entre duas concepções de mundo que giravam em torno das influências de Estados Unidos e União Soviética, ruiu de maneira dramática. Em 18 meses a Alemanha estava reunificada, as principais repúblicas do bloco socialista europeu tiveram seus regimes expulsos por suas populações e a União Soviética deixou de existir. A globalização tornou-se conceito explicativo do mundo. A nova lógica das cadeias produtivas, que se espalhou por todos os mercados em busca de melhores custos de produção, uniu-se à percepção de que a democracia liberal se impusera em quase todo o mundo.

Os analistas internacionais imaginavam que as questões da paz e da guerra no mundo estariam restritas ao renascimento dos nacionalismos que estavam contidos pelo conflito de concepções. A violência das guerras de secessão nas repúblicas da ex-Iugoslávia chocou o mundo civilizado. Conflitos marcados pela Guerra Fria na África deram lugar à barbárie étnica em Ruanda e a conflitos marcados pelo extremismo religioso. Tudo parecia plenamente possível de se administrar, já que na passagem do século 21 os Estados Unidos enriqueciam como nunca, dominavam o planeta, e o comércio mundial ia de vento em popa com a chegada transformadora da China.

Foi então que, em 11 de setembro de 2001, o mundo parou. Uma sofisticada organização extremista radical de terroristas destruía o símbolo da pujança capitalista e atingia em cheio o orgulho da nação dominante. A Al Qaeda de Osama Bin Laden destruía de maneira espetacular as Torres Gêmeas em Nova York. Como em Berlim, não se tratava agora da simples destruição de dois edifícios, mas do ataque a uma ordem internacional que se estabelecia. As consequências são conhecidas. Os americanos mudaram sua estrutura de segurança. Reorientaram seu foco para o Oriente Médio e a Ásia Central. Declararam guerra ao Iraque novamente, derrubaram Saddam Hussein por oportunismo e se envolveram em conflito no Afeganistão que se arrasta até os dias atuais. A economia do país inverteu os sinais com os custos da Guerra ao Terrorismo. O mundo todo foi direta ou indiretamente afetado. Nenhum viajante que passou por um aeroporto a partir de então deixou de ser revistado por detectores de metal.

Em dezembro de 2019, um novo acontecimento tornou-se divisor de águas e passou a afetar a ordem internacional de forma irreversível. Um inimigo invisível infectou uma comunidade na China central e, de forma descontrolada, se espalhou pelo mundo. Aparentemente, o novo coronavírus veio com a força destruidora de outras pandemias enfrentadas no mundo há um século ou mesmo no século 14. Estamos vivenciando as consequências imediatas do fenômeno. Um número de doentes graves que excede a capacidade de atendimento das instituições de saúde em todo o mundo e, como consequência, mortes em profusão. Uma paralisação da atividade econômica mundial por conta das políticas de isolamento social necessárias para conter a pandemia que geraram um grau de endividamento geral nunca vivenciado pelas nações. Garantia de empobrecimento também generalizado nos próximos anos. O mundo não será mais o mesmo.

Se a mudança de ordem pós-1989 teve caráter geopolítico, e a de 2001 redesenhou a segurança internacional, a ordem de 2020 impõe uma nova agenda sanitária. O tema da segurança alimentar passa a ser a segurança do alimento. Quando as pessoas, as empresas e os governos puderem voltar à normalidade, suas agendas serão marcadas pela capacidade de controlar e garantir qualidade na produção e no consumo de alimentos. O estudo da biotecnologia, dos resíduos nos alimentos e seu uso nas relações de comércio estarão entre as prioridades das políticas públicas de todos os países. A ciência deverá mais do que nunca determinar aquilo que se pode consumir como alimento e onde estarão os riscos de contaminação. A vida de todos dependerá da capacidade de evitar doenças e de produzir e consumir alimentos seguros. Uma oportunidade que, definitivamente, o Brasil não pode perder.

*Christian Lohbauer, cientista político, é presidente executivo da CropLife Brasil

Tudo o que sabemos sobre:

Artigocoronavírus

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.