‘Mundo não estava preparado para imunização em massa’

‘Mundo não estava preparado para imunização em massa’

Guilherme S. Hummel*

12 de agosto de 2021 | 05h30

Guilherme S. Hummel. FOTO: DIVULGAÇÃO

De repente descobrimos: não estávamos tão prontos para uma vacinação em massa quanto supúnhamos. Com raras exceções, nenhum país estava. Fomos pegos de surpresa, ou fomos deixados levar pela arrogância do “como já vacinamos milhões há meio século, será só mais um processo imunizante”. Enquanto isso as variantes alfa, delta, gama, etc. brincam de esconde-esconde com o mundo. No Canadá, por exemplo, altas taxas de vacinação da Covid-19 ocultam bolsões onde menos da metade da população recebeu a primeira dose (a maioria em pequenas cidades e áreas rurais). Os Estados Unidos mostraram-se uma nação despreparada para uma imunização em escala, menos por sua infraestrutura e mais pelo seu caótico programa de comunicação (depois de 8 meses de vacinação, o país ainda tem 93 milhões de indivíduos não vacinados). Na França, a falta de preparação ficou evidente em julho último, quando o presidente Macron (já sem qualquer paciência com os ‘claudicantes da vacinação’), introduziu o passe-Covid, que comprova o status vacinal de cada cidadão. Cerca de 48 horas depois do anúncio mais de 2,2 milhões de ‘agendas-vacinais-online’ foram marcadas. No Brasil, não é diferente. Não sabemos comprar vacinas, comunicar a vacinação, rastrear os vacinados ou testar minimamente os pré e pós-vacinados. Se não aprendermos que além da vacina é preciso instrumentalizar a operação vacinal (incluindo a sua compulsoriedade), vamos chegar a 2024 ainda vacinando os excedentes. Em todo esse quadro, salta aos olhos uma realidade: temos tecnologia digital (data science, inteligência artificial, blockchain, teleheatlh, etc.) para desenvolver e propelir a produção de vacinas, mas utilizamos muito pouco essas mesmas tecnologias para acelerar os controles vacinais.

Mais de um bilhão de pessoas no mundo, por exemplo, não têm qualquer documento de identidade. Hoje, a cada quatro crianças com menos de cinco anos só uma ‘existe oficialmente’, as demais não são registradas ao nascer. Ou seja, sem um registro confiável é incrivelmente difícil saber quantas pessoas estão perdendo as vacinações. Paradoxalmente, nunca a civilização contou com tantas ferramentas digitais para controle e rastreamento imunológico. Um exemplo está na solução biométrica, capaz de identificar com segurança aqueles que estão sendo vacinados, possibilitando uma sólida perspectiva de tracking pós vacinação. Mas a biometria ainda é pouco ou nada utilizada na imunização. Somos capazes de utilizá-la nos aeroportos, nos logradouros públicos e até nas portarias prediais, mas 95% das nações simplesmente ignoram as possibilidades de aplicá-la no controle vacinal.

Os aplicativos de saúde (mHealth) continuam sendo a tecnologia digital em saúde mais usada no mundo. Só em 2020 mais 90 mil deles chegaram ao mercado (uma média 250 apps novos por dia). Mas, da mesma forma, nações fazem pouco uso dessas aplicações para suporte a imunização. Um exemplo positivo é o NHS Covid Pass, que se tornou uma peça-chave no controle imunológico britânico. Seu uso não é obrigatório, mas como a população precisa em algum momento “provar” que foi vacinada para ter acesso a ambientes fechados, o app passou a ter a mesma função de um ‘passaporte-vacinação’. Ou seja, com o fim do lockdown no Reino Unido, mais de 6 milhões de britânicos correram para baixar o aplicativo nas últimas semanas. A Grécia adotou o aplicativo Covid Free GR, que da mesma forma pode escanear certificados de vacinação europeus e resultados de testes. Nas corporações, por sua vez, não há a menor dúvida de que a exigência de documentos vacinais será compulsória, apesar das querelas jurídicas e éticas mundo afora. Um exemplo está no próprio Reino Unido, onde mais de nove mil empresas já utilizam o app VaccTrak, um software de RH para controle do status de vacinação dos funcionários.

Telerastreamento (controle de transmissibilidade), Teletriagem (gestão de filas e prioridades de atendimento), Passaporte Vacinal (acesso a qualquer modal transnacional), Checagem Digital de Sintomas (avaliação da quantidade e qualidade de sintomas virais), Rastreamento de Contato Georreferenciado (monitoramento de logradouros com alta transmissibilidade), Controle Sintomatológico pós Vacinação (gestão de efeitos colaterais), Mensageria de Alertas de Risco Viral (comunicação direta, em tempo real, com a população), Geolocalização de Unidades Vacinal (localização de centros de vacinação e filas de acesso), etc. são algumas das ferramentas em Digital Health para suporte pandêmico. Todas essas aplicações são de domínio público, não requerem nenhuma tecnologia ou ciência desconhecida, custam cada vez menos e não precisam de nada que não seja Planejamento e Atitude do Poder Público, coisas, aliás, também esporádicas no ecossistema mundial de saúde. Essa idiossincrasia será um dos temas da sessão de 19/8 do “Digital Journey by Hospitalar”.

*Guilherme S. Hummel, Scientific Coordinator Hospitalar Hub Head e da 2ª Digital Journey by Hospitalar e  mentor – EMI (eHealth Mentor Institute)

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