Mulheres públicas também são imperfeitas

Mulheres públicas também são imperfeitas

Cris Monteiro*

29 de novembro de 2021 | 12h05

Cris Monteiro. Foto: Divulgação

Recentemente me envolvi em um caso que está tendo muita repercussão na mídia. Eu e outra vereadora do meu partido iniciamos uma discussão no plenário da Câmara Municipal de São Paulo e o debate acalorado acabou em agressão contra mim. Não vou escrever aqui sobre este fato – não é o espaço para isso e nem quero criar mais polêmica sobre o episódio. Minha intenção é refletir sobre o pré-conceito de algumas pessoas sobre o comportamento das mulheres em cargos públicos.

Como uma das partes envolvidas, tenho recebido centenas de mensagens de diversos tipos. Muitas de solidariedade e carinho, que me deixam imensamente grata. Outras que afirmam que foi “uma enorme vergonha” o fato de a briga ser protagonizada por duas mulheres.

Dizem que por termos entrado na política, um ambiente com escassez do gênero feminino, não podemos repetir os erros dos homens, que já se enfrentaram com agressividade inúmeras vezes. Que precisamos dar “o exemplo”. Na visão dessas pessoas, o que o ocorreu é uma derrota para o partido, para a política, para as mulheres etc. Há ainda os que sugerem uma reconciliação e um pedido duplo de desculpas.

Me pergunto se ao interpretar o ocorrido levando em conta a questão de gênero, estas pessoas não estão, mais uma vez, condenando o gênero feminino. As mulheres, assim como os homens e os não binários, são serem humanos. E como qualquer ser humano estão sujeitas a discussões e momentos de estresse. O que não podem é partir para a agressão.

Para aqueles que se revoltam pela falta de exemplo dado por nós, mulheres na Câmara Municipal de São Paulo, lamento informar que quanto mais mulheres tivermos na cena política, mais nossas qualidades e defeitos ficarão expostos. Esse é um dos preços a pagar: conviver com a perfeição e com imperfeição dessas mulheres. Já nos acostumamos com as qualidades e defeitos dos homens. Existe um vácuo a ser preenchido no caso das mulheres, que historicamente sempre foram afastadas dos lugares de poder.

Mulheres que entram na política chegam carregadas de expectativas sobre seu comportamento e sobre o que vão entregar. Os olhos estão sempre sobre elas. São mais julgadas, cobradas e condenadas. Não há espaço para nada diferente além de uma enorme patrulha.

Eu entrei na política para ajudar a criar uma cidade mais justa, com oportunidades equânimes e com um forte desejo de fazer diferente. Tenho me dedicado, trabalhado duro. Já aprovei projetos importantes, estudei cada voto que dei; criei polêmicas por escolhas que fiz. Entrei na política porque sou determinada e corajosa, não para ser a princesa do castelo dos outros.

Eu trago a ousadia de questionar inclusive essa expectativa que colocam sobre mim e sobre todas as mulheres que ocupam posições de poder. E reivindico o meu direito de defender meus pontos de vista de forma contundente, o meu direito de não ser a princesa do plenário.

Estou aprendendo muito com o ocorrido, e uma das lições mais importantes é a de enfrentar o desafio de ser mulher na política sem nunca esquecer que representamos não só quem nos elegeu mais todas as mulheres.

Concluo que o desejo de algumas pessoas ao sugerir ‘deixar o caso pra lá’ e pedir desculpas não sinaliza virtude, mas almeja, consciente ou inconscientemente, a perfeição das mulheres que ousaram ser imperfeitas e que, ainda pior, ousam entrar na política e mostrar ao público seus defeitos.

Penso ser importante que a sociedade reflita: representatividade não é sinônimo de perfeição. Mulheres públicas acertam ao lutarem pela igualdade de oportunidades, de salários e contra a violência de gênero. Mas somos todos imperfeitos e reconhecer esse fato é fundamental.

Essa é a minha luta e a minha missão na Câmara. Imperfeita e decidida eu sigo em frente, em busca de um futuro melhor para os imperfeitos desta cidade.

*Cris Monteiro é vereadora da cidade de São Paulo pelo partido Novo

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