Mulheres no mercado financeiro abrem caminho para uma economia mais diversa

Mulheres no mercado financeiro abrem caminho para uma economia mais diversa

Nathalia Paulino*

27 de maio de 2021 | 13h40

Nathalia Paulino. FOTO: DIVULGAÇÃO

O recente anúncio de que as mulheres atingiram um milhão de contas abertas na B3, representando quase 30% de todos os cadastros na Bolsa de Valores, é um marco na jornada feminina no nada inclusivo mercado financeiro. Lembro no primeiro ano de faculdade, quando pela primeira vez pisei naquele ambiente, um mix de testosterona, grandes bancos e corretoras. Fui entender como funcionava o antigo pregão e saí de lá com a certeza de que tinha encontrado o meu sonho, o que eu gostaria de fazer na vida. Não imaginava o tamanho do desafio. E digo isso sabendo que minha trajetória profissional está longe da realidade de muitas mulheres no mercado financeiro.

Entendo que a falta de confiança é uma das principais dificuldades que a mulher enfrenta profissionalmente. Mas não a única. Ter que mostrar que é a mais inteligente, a mais competente, enfim, a cobrança é sempre maior do nosso lado. Não é algo impossível de lidar, mas o momento em que não tivermos que nos provar a todo minuto será um divisor de águas.

Para trabalhar majoritariamente com homens, é necessário direcionar energias para agregar, trazer consistência ao trabalho, e buscar ambientes profissionais que valorizem empenho e bom serviço. Ser a única mulher na cadeira durante as reuniões pode ser desmotivador sim, mas também fortalece.

Um estudo recente revelou que lideranças femininas têm um desempenho superior nos resultados relacionados à Covid-19. Para entender melhor o que estava gerando a diferença nos níveis de engajamento, algumas habilidades interpessoais foram examinadas, tais como inspiração, motivação, comunicação não violenta, trabalho em equipe e construção de relacionamento. São habilidades naturais das mulheres. Fica claro que as pessoas demandam líderes capazes de desenvolver e aprender novas habilidades. A entrada cada vez maior de mulheres no mercado financeiro mostra que essas novas competências desejadas abrirão o caminho para uma economia mais diversa.

Pode levar algum tempo até que seja quebrado o estigma de que homens são melhores tomadores de risco, mas isso acontecerá pelo reconhecimento do resultado. Se temos mulheres performando melhor do que homens na indústria de fundos, por exemplo, e os investidores as excluem, quem são os maiores prejudicados? A resposta é óbvia: os próprios investidores. Eles terão retornos menores. É um pênalti pelo preconceito.

Não podemos deixar de falar sobre o assédio, sendo a cantada, infelizmente, algo que colegas e alguns clientes, às vezes, ainda não resistem. Na minha experiência, depois de um posicionamento mais firme, fica o respeito. Em situações extremas, os instrumentos de proteção estão disponíveis, o que é inadmissível é o silêncio.

Na verdade, sabemos que as mulheres não estão no topo do mercado de trabalho na proporção ideal. Mas, aos poucos, estamos nos posicionando em cargos e áreas, provando nossa capacidade de execução e entrega de resultados. Liderança feminina é dar voz às iniciativas que desconstroem falhas do passado, lapidando uma nova trajetória e reputação, sobretudo na economia.

Eu acredito que a dificuldade vivida hoje deva se transformar em contribuição para que os talentos sejam reconhecidos pela meritocracia. Precisamos de líderes, sejam eles homens ou mulheres, que reconheçam seu papel de encorajamento e incentivo, e que lutem por uma maior presença de mulheres no mercado, ensinando essas mulheres a enfrentar esse desafio com coragem e excelência.

*Nathalia Paulino é formada em administração de empresas com MBA em finanças e sócia fundadora da Nau Capital

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.