Mulheres nas Ciências

Mulheres nas Ciências

Priscila Larcher Longo*

14 de fevereiro de 2021 | 13h00

Priscila Larcher Longo. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Você consegue se lembrar de um cientista importante ganhador de um prêmio Nobel de Química, Física ou Medicina? Muito provavelmente você deve ter se recordado de um homem branco. Agora, tente se lembrar dos personagens históricos dos livros que usou na escola ou mesmo aqueles que estuda atualmente. A maior parte das referências certamente foi tanto escrita, quanto cita homens fazendo Ciências e raramente as pessoas se dão conta que a Ciência também é feita pelas mulheres

Estudos em diversas áreas também mostram que essa diferença de gênero não está só entre os pesquisadores, mas também há desequilíbrio nos participantes das pesquisas, ou seja, há menos conhecimento científico sobre as mulheres.

Nesse contexto, três pesquisadores (sendo duas mulheres) norte-americanos mostraram em 2017 que até os 5 anos de idade, meninas e meninos têm a mesma probabilidade de pensar que seu próprio gênero possa ser brilhante e estão igualmente dispostos a assumir atividades para “crianças brilhantes”. Essa autopercepção é modificada por volta dos 6 anos de idade quando o estereótipo comum associado ao alto nível intelectual de genialidade e brilhantismo dos cientistas homens começa a ser construído.

Nos últimos anos, diversos trabalhos nacionais e internacionais têm mostrado que as atitudes negativas em relação ao gênero feminino criam um ambiente hostil para as mulheres cientistas, facilitando o assédio sexual e afastando mulheres incríveis desse campo de atuação como é mostrado explicitamente no documentário “Picture a Scientist” de Sharon Shattuck e  Ian Cheney de  2020.

Essa distorção da percepção está intrinsecamente ligada ao papel que as mulheres ocupam nas sociedades e esses estereótipos acabam desencorajando muitas mulheres a buscarem carreiras de prestígio nas Ciências.

No Brasil, temos cerca de 212 milhões de pessoas, sendo que mais da metade são mulheres. Algumas pessoas podem achar uma besteira essa discussão de gênero na Ciência, afinal existem e conhecem muitas mulheres cientistas. Porém, os números números do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ) mostram uma realidade permeada pela questão de gênero. A maior parte das bolsas de Iniciação Científica (55%) são das mulheres, porém esse número cai para 50% no doutorado e apenas 36% das bolsas de produtividade (para doutores e livre docentes com alta produção científica) estão entre as mulheres. Os dados indicam que  à medida que se avança na carreira científica e em altos postos acadêmicos, os homens assumem posições consideradas de maior prestígio evidenciando as muitas dificuldades que as mulheres têm para conciliar maternidade e carreira.

Essa discrepância de gêneros nas Ciências também é estimulada pela sociedade machista em que vivemos e que está muito bem representada por falas de pessoas influentes. O ex-presidente da república Michel Temmer por exemplo, em 2017 em comemoração ao Dia das Mulheres destacou o papel da mulher em criar filhos e cuidar da casa e afirmou que “a mulher tem grande participação na economia porque ninguém mais é capaz de indicar os desajustes de preços em supermercados”. Já em 2020 um líder religioso declarou para centenas de pessoas  que mulher tem que estudar, mas sempre tem que ter conhecimento inferior ao marido.

Nesse cenário machista é fundamental falarmos de feminismo. De acordo com Bell Hooks o feminismo é um movimento para todos, não apenas para as mulheres, já que é um movimento para acabar com o sexismo, exploração sexista e opressão.

É importante pontuar que a discrepância de gêneros nas Ciências não é um problema exclusivo do Brasil. Na Alemanha, por exemplo, as mulheres ingressam na universidade, fazem mestrado, doutorado e depois publicam menos e abandonam suas carreiras por conta de problemas muito semelhantes aos enfrentados por mulheres em outras profissões. As cientistas têm de resistir ao sexismo do ambiente de trabalho e precisam equilibrar suas carreiras com a responsabilidade de criar filhos e cuidar da casa com contratos de curto prazo, com baixa segurança de emprego e  o impasse entre a carreira e a maternidade.

Dados da Organização das Nações Unidas mostram que no mundo todo apenas 35% dos estudantes em áreas de Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemáticas são mulheres, mostrando que algumas áreas ainda são dominadas pela formação de homens.

Assim, chega-se à frustrante conclusão que a Ciência é androcêntrica. Mas, como na vida tudo está em constante evolução e mudança, podemos e devemos contribuir para que essas diferenças sejam minimizadas e todas as mudanças sociais, políticas e culturais que as mulheres vêm adquirindo ao longo do tempo mostram reflexo na Ciência. O relatório da Elsevier intitulado “Gender in the Global Research Landscape” mostra os ganhos das mulheres em 27 áreas de conhecimento em 12 países pelo mundo.  Outras iniciativas que valorizam e dão visibilidade às mulheres cientistas já podem ser vistas como o Programa “Para Mulheres na Ciência” da L’Oréal Brasil, em parceria com a UNESCO e com a Academia Brasileira de Ciências ou o Projeto “Meninas Super Cientistas” da Universidade Estadual de Campinas.

Recentemente foi lançada a plataforma Open Box da Ciência (www.openciencia.com.br), que destaca o trabalho de 250 pesquisadoras consideradas protagonistas em suas áreas pelo número de artigos científicos publicados, prêmios recebidos, eventos organizados e por seu engajamento em divulgação científica.

Estamos vivenciando um movimento (vagoroso e lento) para valorizar e igualar a participação das mulheres em todos os níveis e campos da Ciência e Tecnologia. Para que esse movimento seja efetivo e que as mulheres assumam papéis cada vez mais relevantes na Ciência é preciso atuar no processo de desconstrução de uma cultura que trata meninas e meninos de forma diferente e que as mudanças comecem nas escolas desde o ensino fundamental. É esse ambiente que vai ajudar a criança, independentemente do gênero, a ter curiosidade, questionar e ter consciência de que conhecer o universo e seu funcionamento é uma atividade que a empodera.  Precisamos incentivar a participação de todos em eventos científicos, desenvolvendo estratégias, ações educativas e cobrando políticas públicas que promovam efetivamente a inserção das mulheres na Ciência.

Sem dúvida, todas essas ações passam pelo debate sobre a questão de gênero e nesse item a Universidade é o espaço privilegiado e ideal para a busca e construção de uma sociedade mais igualitária e justa em todos os campos, incluindo o das Ciências.

*Priscila Larcher Longo, professora e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Ciências do Envelhecimento da USJT 

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