Mulheres: entre a covid-19 e o feminicídio

Mulheres: entre a covid-19 e o feminicídio

Lidice Leão*

29 de janeiro de 2021 | 09h30

Lidice Leão. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Mal o ano começou e uma reflexão já me assola: como será 2021 para as mulheres que sobreviveram a 2020? Sim, para as que sobreviveram, para aquelas que não foram vítimas do alto índice de feminicídio registrado no ano passado ou para as mais de duzentas grávidas que morreram vítimas da Covid-19 e da falta de estrutura nos hospitais. Só até julho de 2020, duas centenas de mulheres morreram no Brasil nos últimos meses de gestação ou logo após o parto. Todas elas infectadas com o coronavírus. Os dados são de um levantamento feito por um grupo de profissionais da saúde de instituições como USP, Unesp, Unicamp e Fiocruz.

Sobre o feminicídio, cerca de 650 mulheres foram assassinadas pelo fato de serem mulheres, apenas no primeiro semestre do ano passado. O número revelou um aumento de 2% em relação ao mesmo período de 2019, anterior à pandemia e ao isolamento social. A pesquisa é do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Segundo o Instituto Brasileiro de Direito de Família, o estudo indica uma possível influência da quarentena no cenário de aumento dos casos de assassinatos de mulheres dentro de casa, já que a falta de políticas públicas no país pode ter dificultado ou impedido a busca de ajuda por parte das vítimas. De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, as ligações para o 190 motivadas por violência doméstica subiram quase 4% nos seis primeiros meses de 2020, mas os boletins de ocorrência nas delegacias apresentaram queda. Ou seja: as mulheres pediram socorro, mas não levaram as denúncias até o fim.

Será que se o acesso das mulheres a meios digitais de ajuda fosse facilitado, ampliado, a quantidade de vítimas de feminicídio seria menor? Será que uma atenção maior por parte dos serviços públicos essenciais teria salvado algumas dessas mulheres? Será que se não tivesse faltado espaço nas UTIs pelo Brasil afora para atendimento e cuidado de gestantes, um número menor de grávidas teria deixado bebês órfãos e menos recém-nascidos teriam morrido assim como suas mães? São perguntas que devem ser feitas agora, no começo do novo ano. São questões que devem ser colocadas para os governantes.

São mulheres que estão enterradas. Ou corpos que foram cremados. São mortes que estão consumadas, que transbordaram em consistência de lágrimas em 2020. Mulheres que nos deixaram, levadas pela pandemia, assassinadas pelos maridos ou companheiros, por um sistema social injusto que sufoca e massacra as camadas mais pobres e frágeis da população. O ano apenas começou, então temos tempo ainda de pensarmos políticas públicas, de acolhimento e segurança para as mulheres que sobreviveram a 2020, à pandemia, à violência doméstica. Vamos juntas? Só assim podemos pensar na possibilidade de um feliz 2021.

*Lidice Leão é jornalista e mestranda em Psicologia Social pela USP, onde pesquisa o sofrimento psíquico da mulher. É pesquisadora do Laboratório de Estudos em Psicanálise e Psicologia Social (LAPSO) da Universidade de São Paulo

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