Mulheres e igualdade, por mais democracia: simbologia ou realidade?

Mulheres e igualdade, por mais democracia: simbologia ou realidade?

Maria Clara Mendonça*

11 de novembro de 2020 | 07h45

Maria Clara Mendonça. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Kamala Harris é um símbolo. De fato, ser a primeira mulher, negra e descendente de imigrantes, a assumir a vice-presidência de uma potência reconhecidamente uma das maiores democracias do mundo traduz uma simbologia.

É simbólico também que isso tenha acontecido justamente agora, após tantos séculos de afirmação formal da igualdade e, paralelamente, num tempo em que a democracia, antes intocável e até tida consolidada na contemporaneidade, anda, por aí, surpreendentemente sujeita a fissuras justamente por aqueles que têm o dever de defendê-la.

Há um ar de estranha vulnerabilidade da democracia ao redor do mundo, seja nos exemplos da Hungria e da Polônia, seja nessa nuvem de afirmação da força de um poder natural, às vezes patriarcal, de um poder que, muitas vezes, se faz de adormecido, mas que a todo momento teima a ressurgir.

De uns tempos pra cá, paira a tentativa de afirmação desse tipo poder, que é poder bruto e, portanto, sem valor.

Fico feliz com a simbologia de Kamala Harris: a humanidade sempre precisou de símbolos, de esperança. Essa esperança que vem traduzida na resiliência dos que se movem em busca da mudança.

Por isso, acho, sinceramente, que essa vitória é mais do que simbólica, porque traduz uma realidade de democracia.

Democracia é o governo de todos, livres e iguais, dignos de respeito e consideração: democracia é fundamento liberal para o autogoverno e para a garantia de todos nós contra o arbítrio.

Não, definitivamente, democracia não é o governo de amigos contra os inimigos: é, sim, o lugar de consenso ou de busca de solução de conflitos pela regra justa.

Kamala Harris é, nesse sentido, realidade democrática. Em assim sendo, o lugar que ela agora ocupa representa muito mais do que um símbolo.

Sem dúvidas, o resultado desta eleição dos EUA já deveria ter acontecido há tempos atrás. Isso porque a igualdade democrática pressupõe acesso ao poder real de diferentes de visões de mundo, de minorias e, quiçá, das maiorias (que é o caso das mulheres nos EUA).

Cedo ou tarde, a democracia acontece e é, no fim das contas, igualdade e pluralismo.

Kamala Harris, portanto, pode ser, para quem queira, um símbolo. Mas admitamos que esse símbolo é a prova viva da força do poder da democracia e dos valores de igualdade. Os valores  estão aí. Sempre estarão. Apesar dos nevoeiros, valores são muito mais resistentes do que a força bruta. Sempre serão. Não se trata de valores versus poder. Trata-se do poder dos valores. É disso que se trata. Sejamos, portanto, conscientes de nossos horizontes, sem nevoeiros.

*Maria Clara Mendonça, promotora de Justiça do MPES

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