Mulheres buscam maior espaço no cenário político do país

Mulheres buscam maior espaço no cenário político do país

Valéria Paes Landim*

22 de fevereiro de 2020 | 12h00

Foto: Acervo Pessoal

A busca por protagonismo, voz e espaço nos vários segmentos da sociedade tem marcado o posicionamento das mulheres em todo o mundo. Esse movimento é feito de forma veloz na vida profissional dessas mulheres, seja na construção de uma carreira mais tradicional, seja no caminho do empreendedorismo ou, na sua forma mais simples, no mercado informal.

Muitas dessas mulheres consideram a obtenção de um trabalho remunerado como uma possibilidade de superar uma situação de vulnerabilidade social delas próprias e de suas famílias. A trajetória em busca do protagonismo e do reconhecimento muitas vezes ultrapassa a atuação profissional.

Entre janeiro e junho de 2019, o SONDHA – Sistema de Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos – recebeu 46.510 denúncias.
Entre elas, ameaças (1.844), cárcere privado (1.243), tentativas de feminicídio (2.688), violência doméstica e familiar (35.769), violência obstétrica (116), violência física (1.050), moral (1.921), policial (385), sexual (1.109) e virtual (180), além de trabalho escravo (14), tráfico de mulheres (16), violência contra a diversidade religiosa (11). A procura pela ouvidoria demonstra que a mulher, cada vez mais, observa as deficiências que a cercam e denuncia os abusos, ao aumentar sua força se unindo a outras mulheres. O movimento se repete na política eleitoral.

Foto: Acervo Pessoal

O Brasil tem uma classificação precária quanto à presença feminina no cenário político, atrás de países como a Arábia Saudita, em que até novembro de 2019 as mulheres comemoravam a autorização para comparecer a uma partida de futebol, ou para ter licença para dirigir. Diante deste quadro, as mulheres no Brasil decidiram se unir também nesse sentido e reagir para, juntamente com outros mecanismos jurídicos e legislativos já existentes, garantir a presença feminina na política partidária.

O descompasso entre a proporção de candidatas e mulheres em condições de exercício do cargo pode ser atribuído a vários fatores, como falta de apoio real às candidaturas femininas, já que em sua maioria, informações sobre gestão e planejamento de campanha eleitoral são de poder dos homens, líderes dentro dos partidos.

O debate sobre a representatividade da mulher não é uma discussão simples. Merece atenção especial, já que se trata de apoiar minorias. E ainda assim, existem outros grupos vulneráveis que também requerem dedicação. Mas no caso específico das mulheres, e sobretudo das mulheres negras, é preciso pressa. Dado que se não houver velocidade suficiente para incluir nesse processo mais mulheres, dentro desta década o país não chegará à paridade de gênero no cenário político.

A igualdade de gênero não é somente um discurso feminista. Antes de tudo, países que atingem índices superiores a 40% de presença feminina nos parlamentos e nos cargos políticos, em geral tendem a ver uma melhora substancial nas suas cidades, segundo estudos da ONU Mulheres. É fundamental que mais mulheres falem de economia humana, visto que a pobreza e o fortalecimento do capital pelo capital somente aprofundam os abismos socioeconômicos mundiais. Os índices de pobreza e miséria têm crescido de forma progressiva. O tema foi discutido, além da crise climática, no último Fórum Mundial de Davos. E a pobreza, sobretudo, atinge mulheres e meninas.

*Valéria Paes Landim é advogada eleitoral há 12 anos e fundadora do Observatório Nacional de Candidaturas Femininas. Ex-aluna da Academia de Direito Internacional de Haia. Mestranda em Direito Constitucional pelo Instituto Brasiliense de Direito Público.

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