Mulher, um verbo

Angel Machado*

26 de outubro de 2020 | 07h35

Angel Machado. Foto: Divulgação

As mulheres nascem num mundo díspar, vivem como invisíveis ou tornam-se pedras no sapato. Jamais será normal o feminicídio – crimes dessa natureza, ainda com pouca repercussão – não basta cumprir a lei é preciso desmistificar a impunidade de homens que matam mulheres, educando os meninos para a igualdade e a empatia.

Não se refutam os fatos, mesmo que existam instituições que trabalham incansavelmente no combate à violência contra as mulheres. Esse esforço não tem sido suficiente para reprimir tal crime. Enquanto não houver uma política capaz de frear essa barbárie, muitas de nós ainda vamos morrer às mãos de um qualquer maníaco.

O movimento feminista luta a favor das mulheres, e ao fazê-lo está a lutar, também, pela dignidade dos homens, pela promoção do que é humano, ou seja, não é uma luta de gêneros, mas uma causa por uma sociedade definida pela ética. O conceito é amplo – liberdade individual civil e política – que ao longo da História humana tem gerado a revolução nos olhos e na mente da mulher – hoje a decisão é nossa. Entretanto, ao longo de séculos éramos submissas e subestimadas, uma realidade que pertence ao passado.

Há muito tempo a mulher é uma causa no Brasil e a sua relevância está no poder feminino ao lutar por igualdade e direitos; acima dessa questão está o que todas pedem para as que perderam a vida: Justiça. Desde muito cedo, as mulheres foram ensinadas e obrigadas a fazerem coisas que muitas não se sujeitariam se não fosse a lógica da sociedade patriarcal – a mulher não tinha vontade própria, não sabia pensar sozinha – que postulava ser o homem guardião da dignidade, talvez, por usar calças.

E, por exercer o papel de mulher subtraia-se a liberdade de ter opinião e manifestá-la. Muitas ainda vivem sob o manto do medo e da abnegação, nasceram assim e cresceram condicionadas a uma vida sem vontade própria. Atualmente a misoginia alimenta as injustiças, sustentando o extremismo e a maldade voluntária e sádica contra nós mulheres.

A sorte é que a mulher existe e se faz verbo para encorajar as pessoas a terem o mínimo de equilíbrio e raciocínio, numa altura em que os indignos se escondem numa retórica machista e monstruosa. O fato é que muitos homens perderam a capacidade de serem bons, e muitos foram educados pelo mau exemplo dos que os geraram, sem respeito pelas suas mães, irmãs ou companheiras. Uma sociedade que não é sensível à dor gera monstros centrados no estigma e na descriminação.

É incompreensível essa construção histórica em que a renúncia da mulher se fez com limitações e letalidade, sem a punição adequada dos culpados. Como dizia Ruth Bader Ginsburg, “gênero é biológico, assim como a raça é uma característica inalterada, não há nada que faça as mulheres serem melhores que os homens e vice-versa”. Ser mulher é conjugar o verbo da igualdade e dos direitos cívicos em nome de uma sociedade justa e com demasiado zelo pela dignidade humana.

*Angel Machado, jornalista e escritora

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