Mulher no cárcere: a terceira pessoa depois de ninguém

Mulher no cárcere: a terceira pessoa depois de ninguém

Emanuela Carvalho*

26 de abril de 2018 | 05h00

Foto: Elias Rosal

Era o fim do meu primeiro dia no Conjunto Penal Feminino da Mata Escura, em Salvador. O que eu fazia ali? Conversava e iria conversar por muitos dias à frente com mulheres encarceradas, a fim de escrever as suas histórias de vida no meu livro. Eu deveria voltar no dia seguinte.

Assim o fiz.

Mas a questão importante é que o dia seguinte não seria um dia qualquer, mas aquele reservado às visitas dos familiares.

Não havia pensado nisso no momento que confirmei o meu retorno, só me dei conta enquanto me arrumava para ir novamente ao presídio.

O pensamento é que seria um dia tumultuado, confuso, afinal as famílias esperariam por esse dia.

Imaginei a cena: eu chegaria e veria, desde a entrada no Complexo Penal, aquela fila imensa, com pessoas ansiosas e ao mesmo tempo cansadas da espera, algumas reclamando do calor e da demora para entrar, depois pessoas e alimentos sendo revistados, objetos sendo deixados por precaução, na recepção, e eu sendo observadora, mas impossibilitada de fazer qualquer escuta, já que nenhuma das detentas deixaria de ficar com a suas visitas para conversar comigo.

Hora de voltar à realidade. Eu já estava pronta e precisava chegar no horário combinado.

Cheguei.

A primeira coisa que pensei foi que a visita havia começado muito cedo, afinal, à frente do Complexo não havia nenhuma fila, sequer um grupo de pessoas, melhor, nenhuma visita.

Entrei e busquei com os olhos a multidão que imaginei encontrar.

À porta do conjunto penal feminino havia, aproximadamente, seis pessoas. Até hoje não sei se eram familiares ou funcionários aguardando – ‘à paisana’ – o momento de iniciar as atividades.

Passei por essas pessoas, sem qualquer dificuldade, a entrada estava liberada. Ali dentro, mais umas cinco ou seis pessoas, três eram da mesma família – a mãe, a filha e a irmã de uma das detentas que havia feito aniversário na véspera.

Onde estão as pessoas? Já entraram? Eu havia chegado assim tão tarde?

Olhei para o balcão e uma agente penitenciária mexia cuidadosamente o feijão que estava num pote de sorvete. Não sei o que buscava, mas nada foi encontrado e a comida seria liberada.

Ao lado, um bolo de aniversário, lindo! Seria para Malu**. Era redondo, grande, com o glacê branco e rosa. Percebendo a minha admiração com o bolo, outra agente me explicou que todo o glacê seria retirado, o bolo seria cortado em pedaços, quase esmiuçado, a fim de que procurassem algo suspeito, como drogas ou armas. Nada foi encontrado, assim como no feijão.

Não havia outra opção para o meu espanto e curiosidade, a não ser perguntar onde estavam as famílias, as pessoas que deveriam lotar aquele lugar. A resposta? “Ah! As mulheres não recebem visitas assim não. Isso aqui fica lotado no dia de visita para os homens.”

E foi assim que eu passei o dia fazendo escutas, já que a maior parte delas estava sozinha, em sua cela.

Só desce para o pátio quem recebe visita, quem não recebe, permanece na cela. Sair para conversar comigo era uma oportunidade de quebrar a rotina do esquecimento.

Descobri nesse dia que apenas uma das detentas recebia visita do companheiro que estava fora do presídio. E ela só estava ali há um mês. Pelo que contam, começa assim, eles – os companheiros – vão visitar com frequência, que aos poucos vai diminuindo, até que inventam um pretexto para deixar de ir, geralmente o trabalho: “o chefe tá reclamando pra liberar toda semana”.

Outros nem sequer pensam numa desculpa e desaparecem. Num dos casos, o companheiro começou a se envolver com outra pessoa, vizinha da rua onde morava.

A mãe da detenta descobriu e lhe contou. No dia da visita, que era cada vez mais escassa, ela gritou, chorou, ele disse que a amava, que a outra não tinha importância. Ela disse que queria o cartão do Bolsa Família de volta. E pediu que ele não fosse mais.

O segundo pedido foi atendido prontamente. O primeiro, demorou meses… incialmente com a desculpa que o cartão havia sido quebrado, e finalmente com o apoio do Serviço Social da Unidade, que exigiu que ele levasse o cartão quebrado mesmo, em pedaços, como havia dito, ou mandariam buscar em sua casa.

O cartão foi devolvido – inteiro.

O que ficou despedaçado foi o coração de Raimunda**, que, traída, não conseguiu perdoar o companheiro, por dormir fora com a vizinha e deixar as suas máquinas de costura ‘dormirem’ sozinhas, e que ouviu da mãe que ‘homem é assim mesmo, tem suas necessidades’, ela deveria perdoá-lo. Não perdoou.

O vazio e triste dia de visita para muitas foi produtivo para o meu trabalho. Seria a oportunidade de mostrar o quanto elas são esquecidas, mesmo não esquecendo, já que são elas, as mulheres, que formam uma fila imensa na entrada do Complexo, desde a noite anterior, dormem no sereno, levam as comidas preferidas, são elas, as mulheres, que cuidam e não admitem a ideia de abandonar os seus companheiros, são elas, as mulheres, que quando erram, pagam duplamente o preço que já é muito alto, o de ser mulher em cárcere, esquecida, abandonada, invisível.

**Malu e Raimunda são nomes fictícios, mas de mulheres reais, que têm as suas histórias contadas por mim no livro A terceira pessoa depois de ninguém, que será lançado em breve.

*Professora e autora dos livros A Terceira Pessoa Depois de Ninguém e Antes Feliz do que Mal Acompanhada

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