‘Mulher-mãe’, um ser divino

‘Mulher-mãe’, um ser divino

Emanuela Carvalho*

14 de maio de 2019 | 04h30

Emanuela Carvalho. FOTO: MARCELO ROSAS

Domingo foi dia de homenagear as mães. Há quem diga que “dia das mães” é todo dia e seja contra a data específica para comemorar. Há ainda aqueles que, com muita ajuda da mídia e do comércio, se lembram da mãe uma vez ao ano. E há aqueles que nem isso. Na verdade, há de tudo: filhos e filhas para todo gosto.

O que fica para observação e discussão no Dia das Mães é esse caráter divino que a mulher assume ao exercer a maternidade. Ela se torna quase um ser mitológico, uma coisa de outro mundo! A mulher-mãe vira mulher-maravilha, dotada de super, power, mega poderes. E aí de quem se atreva a contestar. Ela é um ser divino.

Uma vez assistindo a um episódio de uma série canadense sobre a maternidade – muito boa, por sinal – me deparei com um exemplo desse super-poder: a mãe passava pelo parque com o seu bebê num carrinho. Ela aproveitava para se exercitar, andando rapidamente, quando de repente apareceu um urso, daqueles gigantes. O urso ficou em pé (duplamente assustador) e começou a rugir para ela e o bebê. O que a mãe fez? Correu, chorou, pediu socorro? Não! A mãe devolveu ao urso o seu rugido assustador e ele, gigante e ameaçador, olhou para a mãe histérica e fez aquela cara de “quem é essa louca?”, deu as costas e foi embora.

É ou não uma atitude de mulher-super-poderosa?

Mas atenção! Ser dotada de condições especiais tem um preço e nem todas as mulheres percebem isso.

Vivemos num país em que mais de 40% das famílias são chefiadas por mulheres – claro, se as mães têm poderes especiais, como não vão conseguir criar, educar, alimentar, sustentar os filhos sozinhas? Moleza!

Fora isso, há ainda o mais comum: mães que criam os filhos ao lado de um parceiro, mas que é como se estivessem sozinhas, porque a criação machista tão influenciadora faz com que muitos ainda pensem que ao homem cabe sustentar, suprir as necessidades financeiras e à mulher, cabe cuidar. Por isso que quando conhecemos um homem que faz integralmente o seu papel de pai, dividindo as responsabilidades tanto no sustento quanto no cuidado, achamos que ele é um tesouro raro e quase inexistente. Não faz mais do que a obrigação.

Para finalizar, trago o ditado, quase uma pérola, que tantas mulheres-mães fazem questão de repetir: “Quando você for mãe, vai entender.”

É isso.

Até a capacidade de compreensão da mulher muda, pelo visto. E é isso que esperam de nós. Que sejamos sempre super-mulheres, sob a ótica de uma maternidade compulsória, ou seja, é mulher, tem que ser mãe, senão a vida não estará completa de sentido. E se é mãe, assuma o seu caráter de super, cumpra sua jornada dupla, tripla, seja uma mulher que se cuida, esteja em forma, dê conta de tudo e não reclame, afinal… você é um ser divino!

Em tempo, feliz dia das mães que é todo dia.

*Emanuela Carvalho, professora e autora dos livros A Terceira Pessoa Depois de Ninguém e Antes Feliz do que Mal Acompanhada

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