Mulher de dono do sítio de Atibaia diz que sabia que Lula usaria imóvel

Mulher de dono do sítio de Atibaia diz que sabia que Lula usaria imóvel

Claudia, casada com o empresário Jonas Suassuna, sócio dos filhos do ex-presidente, disse que esteve duas vezes na propriedade rural, em festas juninas da família do petista

Ricardo Brandt, Fausto Macedo, Julia Affonso e Luiz Vassallo

23 de maio de 2017 | 13h42

Sítio de Atibaia que a Lava acusa ser de Lula, que nega. Foto:Márcio Fernandes/Estadão

Claudia Bueri Suassuna, mulher do empresário Jonas Leite Suassuna, sócio dos filhos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e um dos donos oficiais do sítio Santa Bárbara, em Atibaia (SP), afirmou em depoimento à força-tarefa da Operação Lava Jato que sabia que o imóvel seria usado por Lula. Em sete anos, ela afirmou que esteve duas vezes na propriedade em festas juninas realizadas pelo petista.

“Em depoimento prestado ao Ministério Público Federal, Claudia Bueri Suassuna, esposa de Jonas Suassuna, revelou que apesar de o casal residir no Rio de Janeiro e não ter nenhuma pretensão de se radicar em São Paulo, foi realizada a aquisição do Sítio Santa Denise por Jonas Suassuna, já sabendo que sua utilização seria de Lula”, registra a denúncia entregue, nesta segunda-feira, 22, pela força-tarefa da Operação Lava Jato à Justiça Federal, em Curitiba. É a sexta acusação criminal contra o ex-presidente e a terceira em Curitiba – origem da Lava Jato.

“Claudia Suassuna relatou que apesar de Jonas Suassuna ter supostamente manifestado certo interesse em frequentar a propriedade, reconheceu que somente estiveram no local por duas oportunidades, em festas juninas organizadas pela família Lula”, afirma a Lava Jato, na denúncia.

Documento

Claudia Suassuna trabalhou na Fundação Roberto Marinho e disse ter sido a “rainha do fitness no Brasil”.

“Anterior à Fundação Roberto Marinho, eu por 15 anos fui dona, fui a rainha do fitness no Brasil porque eu inaugurei uma nova maneira de se fazer exercícios, uma nova maneira de encarar a atividade física fazendo uns complexos esportivos.”

A mulher de Suassuna foi ouvida no dia 15 de março pela força-tarefa da Lava Jato e está arrolada como testemunhas de acusação na denúncia, que será apreciada ainda esta semana pelo juiz federal Sérgio Moro.

 

Suspeito: Jonas Suassuna, um dos donos do sítio de Atibaia (SP)

“O que eu sei é que o Jaco, em meados de 2010, 2011, eu não me recordo se foi em 2010 ou 2011, estava com um interesse enorme de comprar um sítio, não tinha dinheiro pra esse sítio, convidou o Jonas, eu sempre fui uma incentivadora do Jonas de mobilizar, o Jonas é um cara muito empreendedor”, contou a testemunha.

Jacó citado por ela é Jacó Bittar, em prefeito de Campinas pelo PT e amigo de Lula desde a década de 1970 – e pai de Fernando Bittar, o outro dono do sítio e sócio de Suassuna e dos filhos do ex-presidente.

“E aí eu falei: Jonas, muito interessante, isso aí vai valorizar, até porque, Jaco do lado, isso foi verdade doutor, Jaco do lado, na época o Lula tinha quase noventa por cento de aprovação no país, logicamente que eles são muito grudados, eles são quase parentes.”

Segundo Claudia, a “família Bittar é muito próxima da família Lula”. ” Muito próxima. Aí eu achei vai valorizar muito mais se começar o presidente a frequentar o sítio do seu Bittar, que depois veio saber que era no nome de Fernando, porque pra mim até então era o sítio do seu Bittar.”

 

“Eu estive nesse sítio umas duas vezes que foram em duas festas juninas e, ao mesmo tempo, a gente tava com muito interesse em construir em Angra, nós dois. E esse sítio acabou ficando pra trás por falta de interesse em construção”, contou a mulher de Suassuna. Ela disse acreditar que as festas foram em 2013 e 2015.

“A testemunha acrescentou, ainda, que “em uma das ocasiões pernoitou em um hotel na cidade de Atibaia”, informa a Procuradoria.

Na denúncia contra Lula por corrupção e lavagem de dinheiro em reformas realizadas no sítio, pelas empreiteiras Odebrecht, OAS e Schahin, no valor de R$ 1 milhão, há um capítulo sobre quem usava a propriedade, denominado “Uso e gozo do local por LULA: Assídua frequência no Sítio de Atibaia”.

“Primeiramente, é de se ver que o excessivo número de vezes que Lula e sua família compareceram ao sítio indica ser este o proprietário de fato e possuidor do imóvel”, registra a acusação, assinada pelos procuradores da Lava Jato, e encabeçada pelo procurador Regional da República Januário Paludo.

“Os veículos de utilização do ex-Presidente da República por pelo menos 270 vezes, compareceram no Sítio de Atibaia, com a utilização de praça de pedágio que dá acesso à cidade de Atibaia, no intervalo entre 2011 e 2016.”

Aconteceu. O procurador quis saber no depoimento sobre a valorização do sítio “com a visita do ex-presidente”.

“Não conseguiria imaginar que ia acontecer isso tudo que tá acontecendo”, disse ela.

“Como que a senhora sabia que ele (Lula) iria frequentar esse sítio?”, insistiu o procurador.

“Porque eles são muito unidos. Porque eles (Jacó e Lula) são muito unidos. Porque logicamente se ele teria um sítio, o compadre dele ia frequentar. Não tenho a menor dúvida.”

Procurador: “Certo. E o Jonas também já sabia que o ex-presidente iria frequentar o sítio?”.

Claudia: “Claro”.

 

Dono. Para o MPF, “os variados elementos de prova colhidos durante a investigação, comprovam que Lula é proprietário de fato e possuidor do sítio de Atibaia”.

A denúncia apresentada nesta segunda-feira a Moro, no entanto, não trata da compra e propriedade do sítio, mas sim da corrupção e da lavagem de dinheiro nas reformas executadas na propriedade, à partir de 2011, por três empreiteiras do cartel que atuava na Petrobrás: Odebrecht, OAS e Schahin.

Na denúncia criminal imputa à Lula 10 crimes de corrupção e 44 de lavagem de dinheiro, no esquema de corrupção descoberto na Petrobrás. O petista ainda pode ter que pagar R$ 155 milhões, com os demais acusados, pelos supostos crimes.

Investigadores da força-tarefa, em Curitiba, reuniram elementos que consideram provas de que empreiteiras Schahin, Odebrecht e OAS pagaram R$ 1,02 milhão em reformas do sítio de Atibaia, no interior de São Paulo.

“A investigação ainda prossegue com relação a possíveis atos de lavagem relacionados a operação de compra e venda dos lotes dos Sítios Santa Denise e Santa Bárbara em favor de Lula”, registra a acusação.

COM A PALAVRA, LULA

Nota

A denúncia apresentada hoje (22/05) pela Força Tarefa da Lava Jato contra Lula mostra uma desesperada tentativa de procuradores da República justificar à sociedade a perseguição imposta ao ex-Presidente nos últimos dois anos, com acusações frívolas e com objetivo de perseguição política. A nota que acompanhou o documento deixa essa situação muito clara ao fazer considerações que são estranhas à área jurídica e às regras que deveriam orientar a atuação de membros do Ministério Público, como a legalidade e a impessoalidade.

A peça buscou dar vida à tese política exposta no PowerPoint de Deltan Dallagnol, para, sem qualquer prova, atribuir a Lula a participação em atos ilícitos, envolvendo a Petrobras, que ele jamais cometeu. Os procuradores reconhecem não ter qualquer prova de que Lula seja o proprietário do sítio, embora tenham repetido esse absurdo por muito tempo em manifestações formais e em entrevistas impropriamente concedidas à imprensa: “A forma de aquisição da propriedade e seu registro, mediante possíveis atos de ocultação e dissimulação, não são objeto da denúncia”.

Mas recorreram a pedalinhos e outros absurdos para sustentar a tese de que Lula seria o beneficiário de obras realizadas no local e que os valores utilizados seriam provenientes de supostos desvios ocorridos em contratos firmados pela Petrobras.  A afirmação colide com todos os depoimentos já colhidos em juízo, até a presente data, com a obrigação de dizer a verdade, que afastam o ex-Presidente da prática de qualquer ato ilícito.

A Lava Jato age de forma desleal em relação a Lula, com acusações manifestamente improcedentes e com a prática de atos que são ocultados de sua defesa. Hoje mesmo, o ex-Senador Delcídio do Amaral reconheceu em depoimento prestado na 13ª Vara Federal Criminal de Curitiba que participou no Mato Grosso de Sul de interrogatório solicitado por autoridades americanas com a participação do Ministério Público Federal e com representantes da Petrobras. O ato, embora relacionado às acusações feitas contra Lula, não havia sido revelado e os documentos correspondentes ainda são desconhecidos.

A falta de justa causa para o recebimento da ação penal proposta nesta data é flagrante e um juiz imparcial jamais poderia recebê-la.

Cristiano Zanin Martins


COM A PALAVRA, ROBERTO TEIXEIRA

22/05/2017

NOTA

A denúncia apresentada hoje (22/05) contra mim é mais um ato de intimidação da advocacia e de desrespeito às garantias fundamentais praticado pela Força Tarefa da Lava Jato. O anúncio ocorre no dia seguinte ao encontro que reuniu em São Paulo 260 grandes nomes da advocacia brasileira para repudiar a perseguição e a violação aos profissionais que atuam no âmbito da Operação Lava Jato.

O ato colide com os “Princípios Básicos Relativos à Função dos Advogados”, aprovados pelo Oitavo Congresso das Nações Unidas em 1990,  segundo o qual “Os Governos deverão assegurar que os advogados (a) possam desempenhar todas as suas funções profissionais sem intimidações, obstáculos, coacções ou interferências indevidas”.

Fui mais uma vez denunciado por integrar a equipe de defesa do ex-Presidente Lula, por com ele manter relação de amizade – após tê-lo conhecido, como Presidente da OAB/São Bernardo do Campo – por ter, como seu advogado, praticado exclusivamente atos inerentes à profissão, como representá-lo, bem como aos seus familiares, em ações judiciais.

A peça sequer se preocupou em esconder seu caráter intimidatório e de tentativa de criminalização da amizade e da advocacia. Diz a denúncia, para justificar a inclusão do nome: (i) “Nas operações de compra do sítio de Atibaia/SP também se verifica a participação do advogado ROBERTO TEIXEIRA (…), o qual goza da extrema confiança de LULA, sendo responsável por representá-lo, bem como a seus familiares, em ações judiciais”; (ii) É possível verificar, ainda, que as escrituras de venda e compra dos imóveis que compõem o sítio foram lavradas na mesma data (29/10/2010), pelo mesmo escrevente (JOÃO NICOLA RIZZI), e no mesmo local: Rua Padre João Manoel, nº 755, 19º andar, São Paulo/SP. Esse é o endereço em que está situado o escritório de advocacia TEIXEIRA, MARTINS E ADVOGADOS; (iii) “JOÃO NICOLA RIZZI, ao seu turno, revelou que todas as escrituras lavradas no interesse de ROBERTO TEIXEIRA tiveram as assinaturas colhidas no escritório de advocacia desse”; (iv)  “A relação bastante próxima entre ROBERTO TEIXEIRA e LULA também é evidenciada a partir das informações prestadas por MATUZALEM CLEMENTONI427, em depoimento colhido pelo MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL. Segundo ele, LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA teria sido padrinho de casamento da filha de ROBERTO TEIXEIRA. Ademais, fontes públicas noticiam a amizade de longa data entre os dois”.

A estapafúrdia denúncia coloca como indício da prática de crime o fato de eu haver prestado serviços advocatícios a Fernando Bittar e Jonas Suassuna: “Em suma, o fato de o advogado ROBERTO TEIXEIRA ter participado da aquisição do sítio, tendo sido, inclusive, lavradas as escrituras das compras em seu escritório, somado à circunstância de ROBERTO TEIXEIRA ser bastante próximo de LULA e de sua família, e não de JONAS LEITE SUASSUNA FILHO e FERNANDO BITTAR, formais adquirentes do sítio, é mais um indício de que esses “amigos da família” serviram apenas para ocultar o fato de que a propriedade foi adquirida em benefício de LULA”

Demonstrarei, em todas as instâncias cabíveis, o absurdo das acusações dirigidas contra mim e a responsabilidade daqueles que usaram de suas atribuições legais para promover a perseguição e a criminalização da amizade e da advocacia.

Roberto Teixeira

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