Mulher de analista da Receita diz que herdou do pai dois relógios de R$ 1,28 mi

Mulher de analista da Receita diz que herdou do pai dois relógios de R$ 1,28 mi

Mônica da Costa Monteiro de Souza, casada com Marcial Pereira de Souza, alvo da Operação Armadeira, declarou bens como herança ao Imposto de Renda, em 2017; Investigação revela esquema dentro do Fisco no Rio para extorsão de empresários e até delatores da Lava Jato

Pedro Prata

03 de outubro de 2019 | 06h30

O Ministério Público Federal identificou meios criativos utilizados pelo grupo de servidores da Receita para lavar dinheiro supostamente proveniente do esquema de propinas para barrar investigações do Fisco. O esquema foi desmantelado pela Operação Armadeira nesta quarta, 2, com a prisão de onze investigados, inclusive auditores, entre eles Marco Aurélio Canal, chefe da equipe de Programação da Receita no Rio.

Durante as investigações, autorizadas pelo juiz Marcelo Bretas, da 7.ª Vara Federal do Rio, o Ministério Público Federal constatou ‘fortes indícios’ de lavagem de recursos provenientes dos atos de corrupção. De relógios sofisticados a bicicletas elétricas, não faltaram meios para disfarçar a propina, informam os investigadores.

Após investigação da Receita, identificou-se que Mônica da Costa Monteiro de Souza, mulher do analista Marcial Pereira de Souza, declarou ao Imposto de Renda, em 2017, dois relógios, supostamente recebidos como herança de seu pai, no valor total de R$ 1,28 milhão.

Os investigadores ainda identificaram outros quatro relógios, supostamente herdados também por Mônica, e que teriam sido vendidos, em 2017, por R$ 900 mil.

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“São descritas diversas inconsistências patrimoniais relacionadas ao analista da Receita Marcial Pereira de Souza, reforçando a suspeita de que sua esposa Mônica da Costa Monteiro de Souza cederia seu nome para ocultação do patrimônio”, conclui o MPF.

O fiscal Alexandre Ferrari Araújo, por sua vez, comprou, em 2018, modelo de luxo de uma bicicleta elétrica suíça, a ‘bicicleta elétrica mais cara do mercado’, por US$ 10 mil.

A bicicleta elétrica ‘mais cara do mercado’, adquirida por Ferrari. Foto: MPF/Reprodução

‘Além de atingir velocidade acima de 45 km/h, a bicicleta é dotada de bateria de lítio e tela de LCD touchscreen onde é possível acompanhar a velocidade, nível da bateria e demais funções e oferece conexão com o celular via Bluetooth’, descreveu o Ministério Público Federal.

Ferrari chegou a desembolsar R$ 20.556,92 por passagens para Sidney, na Austrália, em 18 de janeiro deste ano. Em outra ocasião, pagou R$ 13.287,35, em espécie, numa passagem a Dubai, em 25 de fevereiro de 2017, com a Qatar Airways.

Passagem para Sidney, paga em espécie por Ferrari. Foto: MPF/Reprodução

Segundo a investigação, Ferrari teria viajado a 20 destinos como Miami, Nova Iorque, Los Angeles, Londres e Barcelona, entre 14 de janeiro de 2015 e 15 de julho de 2018. As passagens eram pagas em dinheiro vivo, destaca a Procuradoria.

“Os dados constantes nos registros apontam, ainda, que o representado aparentemente se senta nas primeiras fileiras do avião, indicando a aquisição de passagens de 1.ª classe ou classe executiva.”

COM A PALAVRA, O ANALISTA TRIBUTÁRIO MARCO AURÉLIO CARNAL

A defesa do analista fiscal da Receita Federal Marco Aurélio Canal classificou a prisão de seu cliente como “ilegal”, “de viés exclusivamente político” e “pautada em supostas informações obtidas através de ‘ouvi dizer’”.

O advogado Fernando Martins, responsável pela defesa de Canal, declarou, por meio de nota, “que se trata de mais uma prisão ilegal praticada no âmbito da denominada operação Lava Jato, eis que de viés exclusivamente político, atribuindo a Marco Canal responsabilidades e condutas estranhas à sua atribuição funcional e pautada exclusivamente em supostas informações obtidas através de ‘ouvi dizer’ de delatores”.

COM A PALAVRA, OS INVESTIGADOS

A reportagem busca contato com a defesa dos auditores investigados pela Operação Armadeira. O espaço está aberto para manifestações.

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