Muito além do Jardim

Jorge Pontes*

29 de julho de 2017 | 04h35

Jorge Pontes. FOTO: Arquivo Pessoal

Ontem, o Ministro da Justiça do turno atual, Torquato Jardim, surpreendeu o Brasil quando, entrevistado pelos setoristas de seu ministério, disse que a Polícia Federal terá que reduzir as suas operações e que será preciso um processo seletivo (sic) nas nossas ações.

Há alguns dias, o próprio Ministro Jardim tranquilizou a sociedade declarando que faria um aporte financeiro garantindo o pleno funcionamento da Federal até o final de 2017.

As duas declarações, apesar de tão próximas, se contradizem frontalmente e causam um enorme desconforto na população.

O Ministro da vez parece não conhecer muito bem o órgão que comanda. A PF cumpre a sua missão constitucional há décadas otimizando ao máximo o seu contingente e a sua capacidade instalada. As viaturas estacionadas no Setor de Transporte da PF em Recife, por exemplo, cumprem missão em Maceió e João Pessoa, assim como as equipes de policiais em deslocamento para entrega de intimações em um determinado município, cobrem toda a região adjacente.

Somos aproximadamente 12.000 mulheres e homens com uma atribuição que equivale, com sobras, à missão do DEA, FBI, Fish & Wildlife Service, Immigration, Secret Service e ATF, juntos. Tudo isso num território de 8.514.836 Km².

A sociedade brasileira sabe muito bem que os delegados, agentes, peritos, escrivães e papiloscopistas que operam a PF, todos concursados, sabem trabalhar, e o fazem com profissionalismo e método. Está aí a Operação Lava Jato, que não nos deixa mentir, transformando o Brasil.

A Polícia Federal não irá selecionar operação nenhuma, muito menos sob a gestão de um ministro nomeado por Michel Temer, um presidente desmoralizado.

Outra coisa: a Polícia Federal não tem interruptores que desligam diferenciadamente as suas atividades ou as suas atribuições. Se acabar o dinheiro, pára tudo.

Se os recursos já prometidos saírem, todas as operações da PF correrão dentro do seu cronograma, sem essa solução absurda de “seleção” de nossas ações. Se o ministro falhar em cumprir o prometido, a PF – e o Brasil – terão de fato problemas.

Ainda está para nascer o Ministro da Justiça que irá selecionar as operações repressivas da Polícia Federal, que são deflagradas tão somente em razão do estágio de amadurecimento dos nossos inquéritos, com a fiscalização do Ministério Público e cumprindo as ordens de um Juiz Federal.

Não há dúvidas de que querem atrapalhar a Lava Jato.

Há alguns anos afirmamos que não estamos mais enfrentando a delinqüência organizada, mas sim o crime institucionalizado, onde combatemos aqueles que, encastelados no poder estatal, nomeiam os nossos chefes e liberam – ou não – as verbas para as nossas operações.

O governo e a política, de uma forma geral, está tomada por criminosos, e esses bandidos têm a caneta e o Diário Oficial nas suas mãos. E ainda pagam as suas contas com o nosso dinheiro.

Nunca é demais lembrar que em Outubro de 2018, nós, o povo, podemos acabar com esse pesadelo, desembarcando toda essa quadrilha do poder, não reelegendo ninguém e renovando com efetividade o cenário da política nacional.

Jorge Pontes é Delegado de Polícia Federal e foi Diretor da Interpol no Brasil

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