Muito além do CSI: a rotina dos peritos criminais da vida real

Muito além do CSI: a rotina dos peritos criminais da vida real

Eduardo Becker*

30 de outubro de 2019 | 07h30

Eduardo Becker. Foto: Divulgação / Assessoria de Imprensa

Mostrando o lado ultramoderno e tecnológico da perícia criminal, as séries norte-americanas sobre o assunto popularizaram e deram visibilidade à nossa profissão, mas não revelaram as dificuldades de quem escolheu se expor a riscos para trabalhar em nome da Justiça e da Lei, principalmente, no Brasil.

Todo dia, o perito criminal lida com o pior lado do ser humano. Ele está em contato diário com a violência, fica por dentro dos detalhes mais sórdidos dos crimes, vê coisas que a maioria das pessoas sequer imagina existir, é responsável por processar cenas de crimes e emitir laudos que são imprescindíveis no processo de esclarecimento dos delitos.

Peça fundamental no sistema de persecução criminal, o perito criminal está tão exposto à violência – e aos problemas decorrentes desta exposição – quanto os demais agentes de segurança pública. Mas isso nem sempre é reconhecido, como no caso da aposentadoria, em vários estados. Há alguns anos, nós lutamos para que se estendam aos peritos criminais as regras de aposentadoria das demais categorias policiais, que são feitas com base na exposição ao risco de morte.

E foi justamente para entender esse lado que a enfermeira Greice Petronilho decidiu fazer a sua tese de mestrado, acompanhando a rotina dos peritos criminais e fotógrafos que atuam no Núcleo de Perícias em Crimes contra a Pessoa, do Instituto de Criminalística de São Paulo.

Durante quatro anos, Greice vivenciou todo estresse, pressão e violência a que as categorias da Polícia Técnico-Científica estão expostas e chegou à conclusão de que é “necessário oferecer ações psicológicas preventivas e treinamento contínuo para manter a saúde desses trabalhadores”.

A conclusão da pesquisa da USP, sobre a necessidade de adotar políticas de proteção e de prevenção em saúde mental para a nossa categoria, é uma reivindicação do Sindicato dos Peritos Criminais do Estado de São Paulo (SINPCRESP).

Ao longo de anos de falta de investimentos e de valorização profissional, vimos o número de suicídios mais que dobrar em várias carreiras da polícia, entre elas, a dos peritos. Passou da hora do governo do estado investir nos cuidados à saúde dos seus servidores e em políticas de prevenção ao suicídio.

Recentemente, mais uma colega de profissão não resistiu à depressão. Não queremos que ela vire apenas estatística, mas que o seu caso sirva de alerta para a sociedade e para o governo, que precisa valorizar a profissão e adotar medidas urgentes para garantir a saúde mental dos seus servidores.

*Eduardo Becker, Presidente do Sindicato dos Peritos Criminais do Estado de São Paulo. É graduado em Ciências Biológicas e Segurança da Informação e mestre pelo Departamento de Genética Médica da Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP, na área de Biomedicina. Já trabalhou na identificação humana por DNA e é especialista em crimes cibernéticos.

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