Mudanças no saneamento básico brasileiro: o que falta para o consumidor ser atendido?

Mudanças no saneamento básico brasileiro: o que falta para o consumidor ser atendido?

Henrique Costa*

17 de novembro de 2020 | 03h30

Henrique Costa. FOTO: DIVULGAÇÃO

Uma pandemia causada por uma doença viral cuja uma das formas eficazes de se combater é uma simples lavagem de mãos. Quem diria que um costume que deveria ser tão básico pudesse servir de pano de fundo para uma série de discussões em um país como o Brasil, no qual, em outubro de 2020, ainda 35 milhões de pessoas não têm acesso à água potável. Uma situação de calamidade pública como essa, potencializada por uma crise de saúde pública global, pressionou o governo a adotar medidas efetivas no combate a essa desigualdade para tentar ao menos reduzir o problema do saneamento básico no Brasil com o apoio da privatização.

Governo, serviços públicos e consumidores precisam trabalhar colaborativamente para impulsionar a desenvoltura dos processos de transição das empresas governamentais para a iniciativa privada. Tanto a esfera pública como os executivos das empresas concordam que as políticas nacionais de regulamentação são fatores decisivos para o funcionamento do sistema de saneamento. Por outro lado, a população acredita que é papel do governo mediar a transição, enquanto os empresários ainda esperam por um posicionamento do poder público e o apoio do consumidor para pleitear pela mudança. Entretanto, muito mais do que ter consciência do Marco do Saneamento, é importante trazer à tona qual será seu verdadeiro embate nos setores da cadeia.

O desafio com essa legislação está em permitir e manter as licenças devidas para que as companhias de água, luz e gás possam operar de maneira precisa. Também é necessário que as novas regras contemplem as obrigações legais de cada uma das partes envolvidas e garantam meios, seja por acordos fiscais ou contratuais, para que as concessionárias encontrem o respaldo necessário para manter o preço mais baixo possível.

Quando se fala em respaldo por parte do consumidor, a questão pode ser desdobrada em outros níveis, o que inclui uma atenção maior à eficiência do processo adotado por cada uma das empresas envolvidas nos contratos públicos, a fim de garantir que estas estejam aptas a oferecer um sistema menos suscetíveis a perdas e vazamentos. Esse cuidado com a manutenção se concretiza em um investimento quase invisível em infraestrutura, que muitas companhias públicas ou privadas já fazem, mas cuja notícia não chega aos olhos do consumidor.

Uma dinâmica de trabalho baseada na tecnologia de dados também é importante, sendo capaz de reduzir perdas, garantir maior eficiência no processo e redirecionar com eficiência os milhões de litros de água que deveriam chegar a cada destinatário, mas que hoje em dia ainda se perdem no meio da distribuição por conta de problemas como vazamentos nas tubulações, medidores descalibrados e monitoramentos de dados imprecisos. Em suma: já é hora que haja uma atenção maior a esta parte da cadeia.

A atenção devida a todos estes pontos já está ditando a competitividade entre as concessionárias que estão pleiteando um espaço nas privatizações do governo. Contudo, a transição em si ainda sim enfrentará outras dificuldades. Isso porque, à medida em que os limites do mercado de saneamento e a tecnologia continuem a se confundir, as cadeias de valor também precisarão serem adaptadas para que se evite qualquer risco, seja este financeiro ou de operação.

Mais do que nunca, as companhias envolvidas são desafiadas não apenas a redefinir modelos de mercado e negócios, mas também a executar com mais assertividade aquilo a que se propõem. Cada fornecedor de energia, água, luz e gás tem papel decisivo ao determinar o ritmo da mudança e ao ajustar a velocidade com que as tecnologias de eficiência energéticas irão impactar o seu negócio.

Enquanto o mercado e a legislação ainda têm muito a evoluir, a linha de chegada aguarda a empresa que estiver disposta a assumir os riscos na mobilização de recursos e mudanças no sistema de distribuição, enquanto milhares de brasileiros ainda esperam por uma gota d’água sair da torneira para lavarem as mãos. O contraste entre as duas situações segue sendo incômodo, mas se poder público e iniciativa privada souberem cooperar entre si, o consumidor final poderá, finalmente, ser atendido com a dignidade que merece.

*Henrique Costa é um gestor formado na Universidade de Harvard e CEO da Accell Solutions

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