Mudanças no cenário empreendedor nos últimos 50 anos

Mudanças no cenário empreendedor nos últimos 50 anos

Itamar Serpa*

18 de junho de 2020 | 04h30

Itamar Serpa. FOTO: DIVULGAÇÃO

Sou empreendedor há mais de cinco décadas. Fundei minha empresa em 1969 e sigo a jornada de vencer, aprendendo com os erros e acertos. Para sobreviver no mercado por todo esse tempo, precisei estudar muito e ficar atento às transformações das consumidoras. Antes os problemas eram de produção (com recursos muito escassos), de modo que não ficasse ultrapassada conforme as gerações fossem passando. O curioso é notar que, ao mesmo tempo que várias coisas mudaram firmemente no cenário empreendedor brasileiro, muitas restrições ainda se mantêm e devem ser contornadas de perto por aqueles que desejam abrir sua própria empresa.

No passado, a tecnologia digital nem existia, o conhecimento era escasso e buscado em bibliotecas precárias. Para se abrir uma empresa na década de 70, por exemplo, era uma burocracia sem tamanho. Eram inúmeros formulários para se preencher e dezenas de lugares para ir. Já nos dias de hoje, o advento da internet nos permite mais agilidade para os pequenos, sendo que, em muitos casos, é possível dar entrada no CNPJ sem nem mesmo sair de casa.

Os jovens de hoje praticamente nasceram inseridos no meio tecnológico e digital, com acesso a apps e outros mecanismos de busca que lhes dão a informação de mão beijada na hora em que eles quiserem. O mundo de hoje é mais dinâmico, pois a comunicação também acontece em tempo real, com meios como Whatsapp, Google Meets, Skype, etc. Além disso, ainda tem a questão do ensino superior, que é bem mais acessível aos novos empreendedores e faz com que consigam ter um maior número de ideias e uma base mais estruturada do que o pessoal da dita “velha guarda”, cujo acesso à faculdade era bem mais restrito.

Porém, por mais que atualmente existam mais facilidades para se abrir uma companhia, também aumentou a burocracia para as médias e pequenas empresas. São muitos alvarás, variedades de impostos com milhares de leis e portarias, chegando a cerca de 60 diferentes siglas.

Encontramos um número mais elevado de exigências e etapas para prosperar nas atividades da empresa, mesmo tendo disponíveis os mecanismos digitais que costumam deixar as coisas mais simples.

Com esses mais de 50 anos à frente da mesma empresa, pude perceber que o que faz realmente a diferença em um negócio são as pessoas, seu conhecimento relacional e cognitivo do negócio, a dedicação, o estudo e a constante atualização. Um empreendedor de verdade nunca se acomoda, está sempre estudando e vendo maneiras diferentes para que sua marca possa fazer a diferença na vida da sociedade. Precisamos ser verdadeiros líderes, conectando pessoas por meio da inspiração, unindo e organizando suas competências e realizando resultados extraordinários junto com a nossa equipe.

Acredito que, infelizmente, o ensino atual é muito focado somente em ideias teóricas e profissões do passado. Para que os empreendedores se transformem de fato, seria necessário que as crianças tivessem acesso a matérias específicas desde o ensino mais básico, com noções de negócios, de administração, vendas, marketing e tecnologia, com professores, de fato, empreendedores nessas áreas.

Outra coisa importante é que a escola não se prenda somente ao currículo básico, mas foque também em lecionar um ofício aos estudantes, para que tenham noção das profissões mais promissoras para o futuro. Essas iniciativas, de certa forma, já acontecem na educação privada, mas deveriam se estender também à rede pública. Dessa maneira, desde cedo, a semente do empreendedorismo será plantada nos estudantes, estimulando-os a sempre querer aprender mais, estar um passo à frente e se dedicar mais do que o esperado.

*Itamar Serpa, presidente e fundador da Embelleze

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