Mudança de clima existe?

Mudança de clima existe?

José Renato Nalini*

25 de fevereiro de 2021 | 13h00

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

A cupidez chega a ser criminosa. Ela falseia a verdade e compra consciências. Isso aconteceu com a indústria do fumo. Durante quanto tempo ela patrocinou campanhas no sentido de que fumar era inofensivo? Os que morreram de câncer no pulmão talvez tenham sido iludidos, ou quiseram sê-lo, ouvindo tais mentiras.

Idêntica a situação dos negacionistas em relação à mudança climática. Empresas como a Exxon, em tempos idos, pagavam dez mil dólares para cada doutor que escrevesse negando a mudança climática. Cientistas chegaram a comparecer a audiências públicas do Senado, para dizer que isso seria invencionice. Essa informação partiu do cientista Luiz Gylvan Meira Filho, autoridade internacional no tema das mudanças climáticas, de cujos ensinamentos extraio estas reflexões.

Quem se recusa a aceitar a mudança climática o faz por ignorância ou a soldo da economia interessada? Qual a explicação fornecida para a inexistência desse fenômeno?

Mas será que o aumento da quantidade de gás carbônico na atmosfera é algo independente da ação do homem? O degelo das calotas polares é natural? O desaparecimento de ilhas é fruto da natureza?

A ciência demonstra que a mudança climática existe. Em 2100, o aumento da temperatura será de 3 graus centígrados. A inércia faz com que a temperatura continue a crescer, mesmo com a cessação de todas as emissões. O Acordo de Paris pretende reduzir apenas um grau e meio do aumento da temperatura. Ainda assim, existe uma resistência dos negacionistas a observá-lo.

Os gases do efeito estufa são muitos e são diferentes. Para cada emissão anual, a temperatura sobe por vinte anos, antes de cair lentamente. Metano, gás carbônico, envenenam a Terra. Para estabilizar a concentração atmosférica de gases de efeito estufa, e refrear o aumento da temperatura, seria necessário reduzir em 60% as emissões, considerado, como parâmetro, os índices do ano 1990. Para limitar o aumento a 2 graus Celsius, as emissões líquidas precisariam ser zeradas até 2100. Para limitar a 1,5 graus Celsius, zeradas até 2060. É o que pretende o Acordo de Paris.

Quando os Estados Unidos saíram dele, frustrou-se a expectativa ecológica. Agora eles voltam. Será que isso levará os demais países a uma ação consciente? É urgente. As consequências do aumento da temperatura são gravíssimas.

A pretensão do Acordo de Paris é muito tímida. Limitar o aumento da temperatura a 2 ou 1,5 graus Celsius em 2100. Cada país declara o que pretende fazer, permite-se o comércio de emissões e a tendência de incluir outros objetivos globais. Isso deverá estar presente na COPE 26, em Glasgow, no próximo novembro.

Uma concepção interessante é a da responsabilidade objetiva. O custo dos danos deve ser coberto por todos os países, na proporção de suas contribuições para causar a mudança do clima. Não se perquire de dolo ou culpa. Da mesma forma, a mitigação – expressão errônea – o esforço para diminuir as emissões, deve ser repartido entre os países, na proporção de quanto emitem. É a concretização do princípio do poluidor-pagador.

Mas para que isso funcione, há de se reclamar conduta ética de cada Nação. Não há sanção oficial, mas existe a execração pública. Espécie de punição moral. Ou seja: os países que se negarem ao cumprimento dessas propostas serão considerados párias. É a repulsa moral, que ainda vale no discurso, mas que o autoritarismo não costuma levar em consideração.

A população de cada País deveria exigir de seus governantes, a adoção de práticas preventivas – ou até de precaução, princípio bem mais abrangente – para minimizar os efeitos da mudança climática. Invocar o Acordo de Paris pode convencer os que ainda não foram contaminados pelo negacionismo fanático.

O comércio de emissões se baseia em que há diferenças no custo marginal de redução de emissões. Ele permite que as reduções ocorram onde o custo marginal é menor, com ganhos para todos. É objeto do artigo 6º do Acordo de Paris. Ainda está em discussão e o desafio é encontrar a fórmula para que isso se faça com transparência e seja viável.

A tendência de regulação do pagamento de serviços ambientais, na medida em que ocorrer, fará com que o comércio de reduções de emissões se associe ao comércio de serviços ambientais. Alternativa a ser ainda explorada. O Brasil tem contribuído consideravelmente para mudar – para pior, é claro – o clima do planeta. É 2,8% de população no mundo e 4,5% de emissão de carbono. Em termos de temperatura, contribuímos com 3,2% do total mundial.

Enfim, mudança de clima existe. É comprovado pela ciência. Só a ignorância ou a má-fé não querem admitir isso. Por isso, Marina Silva tinha razão quando disse: “Responsabilidade diferenciada não é falta de responsabilidade”.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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