Mudança climática: protagonismo corporativo beneficiando negócios e sociedade

Mudança climática: protagonismo corporativo beneficiando negócios e sociedade

Jorge Hargrave e Arthur Ramos*

12 de novembro de 2021 | 07h30

Jorge Hargrave e Arthur Ramos. FOTOS: DIVULGAÇÃO

Mitigar as mudanças climáticas é um dos principais desafios da sociedade atual. O assunto ganha ainda mais destaque com o início da COP26, a Conferência do Clima da ONU, que acontece a partir do próximo domingo 31 de outubro. A longo de duas semanas, os principais líderes mundiais e especialistas na área discutirão os impactos e estratégias para conter o aquecimento global. Trata-se do maior desafio que a humanidade enfrentará daqui para a frente, com grande impacto sobre os negócios de empresas de todos os setores. O Boston Consulting Group (BCG) realizou um estudo que traz dados abrangentes, análise de cenário e oportunidades para as empresas que desejam contribuir com um futuro possível.

Em 2020, pela primeira vez, os cinco principais riscos da humanidade definidos no relatório do WEF foram ambientais: temperaturas extremas, fracasso das ações climáticas, desastres naturais, perda da biodiversidade e desastres ambientais causados pelo homem. Em 2021, entrou na lista a preocupação com doenças infecciosas, trazida pela Covid-19. O Acordo de Paris, de 2015, foi ratificado por 189 países e tem como objetivo principal que o aumento da temperatura média global em relação aos níveis pré-industriais seja no máximo de 2°C. Se formos além desses limites, as chances de enfrentarmos eventos catastróficos aumentam exponencialmente.

Para alcançar essas metas, governos, terceiro setor, empresas e cidadãos precisam agir de forma rápida e ambiciosa para reduzir em 50% as emissões de carbono até 2030 e alcançar net-zero até 2050. Diferentemente de carbono neutro, que significa compensar a emissão de carbono utilizando ferramentas que evitam emissões, o net-zero é a redução das emissões de carbono líquidas a zero, ou seja, para cada tonelada de CO2 emitida, uma é removida. Além das consequências ambientais e sociais já muito conhecidas, como aumento do nível do mar e degelo de calotas polares, o caminho atual tem prováveis efeitos econômicos. Atingir a meta só será possível se as empresas estiverem caminhando proativamente na mesma direção do Acordo.

Com 2,9% das emissões mundiais o Brasil é o 6º principal país emissor e, portanto, tem papel importante no controle do aquecimento global. Mas se nossa matriz energética é tão mais limpa que a média global, com apenas 31% das emissões com origem no setor de energia, versus 87% na União Europeia, por que ainda somos um dos principais emissores? A resposta é que o perfil do Brasil é muito diferente do de outros países do grupo. Agricultura e mudança no uso da terra são responsáveis por 62% das emissões no Brasil, contra 5% na UE. O crescimento do desmatamento nos últimos anos implicou diretamente no aumento das emissões brasileiras, de modo que a redução do desmatamento é uma das principais alavancas necessárias para diminuir as emissões do Brasil.

O aumento do desmatamento nos últimos anos já tem impacto concreto nos negócios. Desde 2019, o Brasil vem recebendo avisos de líderes mundiais e grandes empresas, sugerindo a possibilidade de bloqueios comerciais caso a tendência de desmatamento não seja revertida. Em 2020, um grupo de 29 empresas de investimento de nove países, que juntas administram US$ 3,7 trilhões, enviou uma carta a diplomatas brasileiros pedindo reuniões para debater a política ambiental brasileira e algumas já estão ameaçando retirar investimentos do país. Ao mesmo tempo, existem diversas oportunidades que o Brasil pode explorar relacionadas ao uso do solo (ex. reflorestamento, agricultura regenerativa).

A demanda pelo enfrentamento de mudanças climáticas não recai apenas sobre governos ou países. As empresas também enfrentam pressão crescente para adoção de medidas mais sustentáveis. Uma atitude proativa, no entanto, proporciona oportunidades para que prosperem nesse novo cenário climático. Existem 5 principais frentes que pressionam o setor privado para mudança substancial de seu impacto sobre o clima: consumidores, colaboradores, ativistas, investidores e regulação.

Embora o cenário seja crítico, as dificuldades podem representar oportunidades. Os custos para redução de emissões estão cada vez mais baixos, e a tendência é que diminuam com avanços tecnológicos esperados para os próximos anos. Análises do BCG mostram que cerca de 17% das alavancas de redução têm custo inferior a US$ 10/t CO2, sendo que 13% são menores que zero, isto é, têm retorno positivo. Ademais, é esperado que o preço do carbono suba consideravelmente nos próximos anos, melhorando a atratividade dos projetos de redução de emissões. Isso incrementará a viabilidade das iniciativas para descarbonização.

As mudanças nos padrões de produção e consumo prometem gerar também novas oportunidades para os negócios. Alguns exemplos são os avanços nas fontes de energia renovável já maduras, como solar e eólica, eletrificação de veículos e aumento da captura de valor em serviços de energia. Com oportunidades em todos os setores, as empresas têm muitos caminhos para prosperar, e as que saírem na frente conquistarão vantagem competitiva em relação àquelas que deixarem para depois.

*Jorge Hargrave, diretor do BCG e colíder da prática de Mudanças Climáticas; Arthur Ramos, senior advisor em Clima e Energia no BCG

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