Lava Jato investiga 429 clientes do banco de Dario Messer

Lava Jato investiga 429 clientes do banco de Dario Messer

Lista de correntistas de instituição controlada por doleiro em Antígua e Barbuda tem empresários, nomes ligados a políticos e envolvidos em casos de corrupção

Julia Affonso e Fabio Serapião / BRASÍLIA

17 Maio 2018 | 00h01

Dario Messer. Foto: Reprodução/Facebook

A força-tarefa da Operação Lava Jato, no Rio, investiga uma lista com 429 clientes do banco Evergreen (EVG), controlado pelo doleiro Dario Messer, em Antígua e Barbuda, até meados de 2013. Da relação, constam 119 offshores e 145 contas de pessoas físicas. São empresários, doleiros, esportistas, nomes ligados a políticos, servidores públicos e personagens de casos recentes de corrupção.

A lista, à qual o Estado teve acesso, foi entregue pelos doleiros Vinicius Claret, o “Juca Bala”, e Cláudio Barboza, o “Tony”, que atuavam para Messer a partir do Uruguai. Os dois são delatores da Operação Câmbio, desligo, deflagrada no dia 3 de maio pela Polícia Federal.

O Ministério Público Federal quer identificar quais clientes do banco têm relação com casos de corrupção, quais sonegaram recursos e, ainda, aqueles que mantinham valores fora do País de forma regular.

Em relatório ao juiz federal Marcelo Bretas, da 7.ª Vara Criminal Federal do Rio – responsável por autorizar a operação da PF –, os procuradores afirmam que “muitas contas” foram abertas na instituição “em nome de familiares ou terceiros”. Segundo os investigadores, o “banco EVG tinha como escopo a lavagem de dinheiro por meio da ocultação patrimonial de bens de seus clientes”.

Messer é considerado o “doleiro dos doleiros”. Ele foi alvo de mandado de prisão expedido por Bretas, mas permanecia foragido e foi incluído no alerta vermelho da Interpol.

Conforme as investigações, Messer mantinha sociedade no banco com Enrico Machado. “Em 2012, Messer se desentendeu com Enrico, rompendo sua sociedade com ele não só no Uruguai, como também no banco mantido em Antígua”, relatou o Ministério Público Federal.

A lista de clientes do banco de Messer reforça a versão dos investigadores de que a instituição financeira era utilizada para mascarar clientes do doleiro e lavar dinheiro. Entre os “correntistas” do EVG estão pelo menos dez doleiros que se valiam de sistemas de movimentação de dólares e reais e tinham a família Messer como garantidores das transações.

Na lista dos que mantinham contas no banco estão os irmãos Chebar, responsáveis por levar a Lava Jato até o grupo de Messer. Os delatores Renato e Marcelo Chebar aparecem vinculados a pelo menos três offshores: Blue Stream Investments 1, Blue Stream Investments 2 e Matlock Capital Group.

Os Chebar foram os primeiros a relatar como Messer atuava como “doleiro dos doleiros”, garantindo moeda para operações transnacionais. Segundo eles, após Sérgio Cabral (MDB) assumir o governo do Rio, em 2007, a movimentação de valores ilegais atingiu uma escala tão grande que foi necessário acionar o esquema de Messer.

Fundos de pensão. Personagens de outras investigações estão na lista de clientes do banco. Uma das offshores com conta no EVG, a Phoenix C.V. está atrelada a Christian de Almeida Rego e a Roberto de Almeida Rego. Christian foi ouvido em 9 de fevereiro de 2006 na CPI Mista dos Correios. Ele era suspeito de praticar operações fraudulentas com fundos de pensão patrocinados por estatais.

O ex-diretor da Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil (Previ) João Bosco Madeiro da Costa está na lista de clientes do EVG, ligado à offshore Frodsham SA. Em agosto de 2013, Madeiro da Costa, o ex-diretor do Banco do Brasil Henrique Pizzolato – condenador no mensalão – e outros quatro investigados foram absolvidos pela Justiça Federal do Rio por crime contra o sistema financeiro. Os ex-dirigentes foram acusados por gestão temerária do fundo de pensão do Banco do Brasil.

Em dezembro daquele ano, a Procuradoria Regional da República da 2.ª Região se manifestou contrária à absolvição. Os procuradores atribuem aos ex-dirigentes crime cometido na aplicação de R$ 150 milhões da Previ no fundo CVC/Opportunity para o leilão de privatização da Telebrás, em 1998.

Outras operações. Renato Malcotti, acusado em processo oriundo da Operação Caixa da Pandora – escândalo conhecido como mensalão do DEM –, também está na lista do EVG, atrelado a três offshores (Glasgow LTD, Dudevant Enterprises LLC e Bangkok LTD).

A offshore Royal ST George está em nome dos irmãos Affonso Henrique Mayrink e Pedro Henrique Mayrink. Eles são primos do doleiro Bernardo Freiburghaus, alvo da Lava Jato.

Na terceira página da lista entregue pelos doleiros, consta o nome de Eric Davy Bello, ligado à offshore Terranova Holdings LTD. Ele é filho de Ruy de Mesquita Bello, presidente da RioPrevidência de abril a dezembro de 2002, na gestão de Benedita da Silva (PT), e sócio da corretora de valores mobiliários Turfa. Pai, filho e outros seis investigados foram denunciados, em 2005, por desvios de R$ 25 milhões do fundo, por gerir fraudulentamente instituição financeira, com base na Lei do Colarinho Branco. Em 7 de junho de 2011, todos foram absolvidos pelo juiz federal Gustavo Pontes Mazzocchi.

O advogado Wagner Madruga do Nascimento, filho do desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, Ferdinaldo Nascimento, aparece na lista de clientes do EVG como sócio da offshore Grenoble Ltd. De acordo com a lista obtida pelo Estado, a conta é vinculada ao doleiro Roberto Rzezinski.

O advogado e seu pai foram citados em um esquema de irregularidades envolvendo massas falidas. O desembargador, por causa dessa suspeita, foi alvo de uma investigação no Conselho Nacional de Justiça (CNJ) aberta em 2013. Os irmãos gêmeos Marcelo e Roberto Rzezinski mantinham, cada um, uma conta no EVG.

O empresário Alexandre Accioly também está na lista. Ele manteve recursos no banco criado por Messer. A ex-jogadora de vôlei Jaqueline Silva, medalha de ouro na Olimpíada de 1996, em Atlanta, tem, de acordo com a lista, uma conta de pessoa física no EVG. Ao lado do nome da ex-atleta há a indicação “Brasil”.

O advogado Antonio Figueiredo Basto, que defende Christian de Almeida Rego e Eric Davy Bello, informou que desconhece a lista de clientes.

O desembargador Ferdinaldo Nascimento, do Tribunal de Justiça do Rio, afirmou que não comenta “rumores”. O advogado Wagner Madruga do Nascimento, filho de Ferdinaldo, não respondeu aos contatos.

Contatadas, as defesas de João Bosco Madeiro da Costa, Renato Malcotti e Roberto Rzezinski não haviam respondido até a conclusão desta edição.

m petição ao juiz Marcelo Bretas, o empresário Alexandre Accioly afirmou que manteve “carteira de investimentos no banco EVG, instituição financeira de médio porte, sobre a qual, naquele momento, não recaía qualquer suspeita”. Os advogados relataram que os valores foram regularizados com a Lei da Repatriação.

Nas suas atividades empresariais de 2005 a 2011, Alexandre Accioly teve pequena parte de suas receitas não declaradas pela dinâmica dos próprios negócios, recursos estes parcialmente alocados no exterior”, registrou a defesa. “Importa dizer que os investimentos, até então mantidos no EVG, foram integralmente transferidos para o Crédit Agricole Private Bank, objeto de regularização.”

A ex-jogadora de vôlei Jaqueline Silva disse que não se lembra de ter mantido conta no EVG, mas que vai procurar para saber se, na época em que era jogadora e atuava no exterior, manteve valores no banco oriundos da atuação profissional.

Os outros citados ou suas defesas não foram localizados pelo Estado.

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