Movimentações milionárias, disputas internas, ameaças a autoridades e ‘reinvenção’ após transferência de Marcola; saiba detalhes da Operação Sharks contra o PCC

Movimentações milionárias, disputas internas, ameaças a autoridades e ‘reinvenção’ após transferência de Marcola; saiba detalhes da Operação Sharks contra o PCC

Vista pelos promotores do Ministério Público de São Paulo como a principal ação para desarticular a facção desde a remoção de lideranças para presídios federais, apuração durou quase um ano e identificou nova cúpula da organização

Rayssa Motta, Pepita Ortega e Fausto Macedo

14 de setembro de 2020 | 18h36

A investigação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público de São Paulo, que levou à deflagração da Operação Sharks nesta segunda-feira, 14, teve início no primeiro semestre do ano passado. Ao longo de quase um ano, os investigadores buscaram entender como a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) mudou a lógica de atuação após a transferência do chefe Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, e de outras 21 lideranças para o sistema penitenciário federal no início de 2019.

Os promotores afirmam que fizeram um ‘trabalho de formiga’ para cruzar dados de inteligência e mapear o novo modus operandi da organização criminosa.

“O comando sempre foi piramidal, desde 2016. Antes da remoção (das lideranças ao sistema penitenciário federal) sempre esteve na Penitenciária II de Presidente Venceslau. Por vários anos, esses presos conseguiram comandar o crescimento exponencial a partir do sistema prisional paulista. (…) A partir da remoção, as ordens passaram a vir das ruas”, explicou o promotor Lincoln Gakiya.

O líder na hierarquia passou a ser Marcos Roberto de Almeida, o Tuta, segundo aponta a investigação. Principal alvo da operação de hoje, ele não foi encontrado pelos policiais e passou a ser foragido da Justiça.

“É um indivíduo que tem contato em consulado, que transita não só no País, mas fora do País. Comanda uma operação em que a ordem não está mais centralizada nos presídios”, afirma Gakiya.

Tuta não é o único foragido. Ao todo, foram expedidos 12 mandados de prisão na Operação Sharks: três deles foram cumpridos, um alvo morreu em suposto confronto com a PM e oito investigados não foram encontrados. A investigação aponta que há alvos Paraguai e na Bolívia, já no radar da Interpol. Os três presos devem ser transferidos para o interior de São Paulo.

Embora o atual chefe e alguns de seus comparsas não tenham sido capturados, os promotores do Ministério Público de São Paulo avaliam que a Operação Sharks é a ação mais importante para desarticular o PCC desde a transferência de Marcola e seus pares. Isso porque a nova cúpula foi identificada e com as informações reunidas deve ser possível desencadear novas ações contra a facção.

“Não é a operação mais importante em número de investigados, mas sim pela qualidade destes investigados”, explicou Gakiya.

Os 40 mandados de busca e apreensão cumpridos em endereços da capital, região metropolitana, baixada santista e em cidades do interior paulista, por exemplo, renderam um ‘farto material’, segundo o MP, que ainda será analisado.

Entre os materiais apreendidos em imóveis de alto padrão, alguns em condomínios fechados ou com vista para o mar, estão veículos importados, armamentos pesados, explosivos, drogas, dinheiro (cuja quantia não foi informada) e planilhas que indicam a movimentação de R$140 milhões apenas no primeiro semestre de 2018. Há suspeita de remessas ao exterior e lavagem de dinheiro.

A investigação aponta ainda que a ascensão das novas lideranças foi marcada por uma disputa interna, inclusive pelo controle da rota de tráfico internacional de cocaína pelo Porto de Santos, uma das operações mais rentáveis da organização.

Outra mudança foi a instituição de um setor de ‘raio-x’ para blindar a cúpula da facção. “O setor do raio-x é responsável por reunir as informações das funções inferiores da facção justamente para proteger a sintonia final. O PCC nunca chegou a se dividir em células, continua sendo uma facção criminosa essencialmente piramidal, com parte da cúpula ainda presa. Esse setor do raio-x funciona pelo menos desde 2017 e faz uma camada de proteção para a sintonia final, reunindo uma pessoa de cada uma das funções, como se fosse um conselho consultivo para orientar as decisões”, disse o promotor Leonardo Romanelli.

As autoridades envolvidas na investigação também confirmaram, sem dar detalhes, terem sofrido ameaças e retaliações no curso das apurações.

Tudo o que sabemos sobre:

PCC [Primeiro Comando da Capital]

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: