Motivos: castigo ou oportunidade?

Motivos: castigo ou oportunidade?

Elisa Leão*

20 de abril de 2020 | 04h30

Elisa Leão. FOTO: DIVULGAÇÃO

Eu podia sair de casa, levar meus filhos para a escola, trabalhar, ir a academia, ao supermercado, ao shopping, almoçar fora, buscar meus filhos na escola, conversar com a professora, jantar fora, encontrar amigos, ir à igreja… talvez não nessa ordem, mas a minha vida era diferente do que estou vivendo nesses últimos tempos de isolamento social. Alguém se identificou?

Tudo mudou, a liberdade foi roubada por algo invisível e perigoso. Um inimigo que chegou se impondo e embora microscópico, com um poder mortal. Mas por que? Qual é o motivo? Por que ficar sem a liberdade do dia a dia? Por que ter problemas com o salário? Perder pessoas queridas? Ter problemas sociais? Ter problemas econômicos? Por que ter que trabalhar e trabalhar em casa e trabalhar para a casa e cuidar das crianças e ter que se transformar em faxineira, professora e tudo isso de uma vez? Em alguns momentos isso parece castigo! Castigo? Por quê?

Mas… não preciso acordar tão cedo para acordar às crianças e leva-las para a escola. Posso tomar café com todos da casa e ainda ter ajuda para tirar a mesa. Não preciso pegar trânsito para ir ao trabalho e esse tempo que ganhei, posso entrar em contato com pequenos desafios que eram tão difíceis como arrumar uma gaveta ou o armário. Desafios como entrar na mais profunda intimidade que havia ficado silenciada pelos barulhos das distrações. Desafio de olhar para a própria individualidade e as próprias escolhas percebendo que tudo tem dois lados e posso escolher qual deles eu vou focar.

Não vou ao supermercado e posso descansar dessa tarefa, acionando aplicativo, sentada no sofá. Estou economizando dinheiro porque não vou ao shopping, não compro roupa e nem preciso nesse momento. As roupas precisam ser lavadas, mas passadas, só aquelas que aparecem na tela da vídeo conferência. Hoje, o almoço foi um piquenique no chão da sala, pois a mesa estava lotada de papéis, cadernos, computador, já que todos estão trabalhando juntos, sentados lado a lado. Quando acabamos de comer, todos tiramos os pratos do chão, lavamos e guardamos juntos, afinal de contas já havia sido feita a negociação de flexibilizar o local de almoço e o ajudar a arrumar a cozinha. Ganhamos um “bate papo” despretensioso e cheio de significados, cúmplices de uma família unida pelo amor. Através de olhares mais demorados, entendemos que não somos perfeitos e que isso não importa, desde que tenhamos mais desses olhares amorosos. Será melhor assim do que olhares de acusações, isso tornaria as coisas muito mais difíceis. Fatalmente, acompanhei as aulas dos meus filhos e quase chorei de emoção ao ouvir minha filha dizer que estava feliz em ver os amigos através daquela vídeo aula organizada pela escola, que teve que se adaptar, à força, a essa nova realidade. Senti profundamente que essas crianças também estão sofrendo, que eles também perderam e que estão se adaptando a realidade atual. A emoção também veio à tona quando percebi a professora do meu filho, que mesmo sem experiência, transformou-se numa educadora virtual e está fazendo melhor que muitas profissionais da área de ensino a distância.

O momento escancara perdas e também perdas de pessoas queridas. Senti que é preciso aproveitar ao máximo essas pessoas, da maneira que for possível. No momento, por ligações de vídeo, ouvindo a voz, observando a expressão facial, as palavras mais usadas, os contextos, as preocupações, o sotaque. Coisas que não chamavam a atenção, mas agora saltam aos olhos, com um significado especial. É como se estivesse conhecendo uma parte dessas pessoas que ainda não tinha visto ou que o desgaste natural das relações não permitisse que se vissem nelas, fatores positivos.

Castigo ou oportunidade?

Depois do susto de sair da zona de conforto à força, enfrentar a situação é uma oportunidade. Olhar ao redor mostrou o bom de estar mais próxima dos meus filhos, do meu marido, da minha casa e de uma parte, muitas vezes terceirizada e que é conquistada de uma vida, é escolha pessoal. Oportunidade de ver detalhes, sem distrações, do que realmente vale a pena! Oportunidade de aproveitar esse momento que vai passar. A vida normal vai voltar, a rotina vai se instalar novamente, mas quando isso acontecer, penso que estaremos um passo adiante no nossa caminhada pessoal. O inimigo invisível trouxe um confronto direto, um tapa na cara, de que temos que cuidar de nós mesmo, temos que cuidar do outro próximo e temos que cuidar do outro longe para sobrevivermos. Temos que valorizar quem cuida de nós, quem nos ajuda a cuidar dos nossos filhos, da nossa casa.

Falar de Motivos? Muitos!

O motivo da possibilidade de conviver consigo mesmo, percebendo o que realmente vale a pena. Superando os desafios complexos do momento que exige auto controle, empatia, sociabilidade, criatividade e fé!

O que vale realmente é a vida e o que é vida nessa vida.

*Elisa Leão é professora doutora, coordenadora do Grupo de Pesquisa e Estudos em Aspectos Psicossociais do Desenvolvimento Humano da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Brasília, e psicóloga clínica

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