Mostremos a ciência à juventude

Mostremos a ciência à juventude

José Renato Nalini*

24 de novembro de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Os países que privilegiaram a ciência pura deslancharam e passaram a ocupar a primazia nos rankings de reconhecidos êxitos. Imersos na Quarta Revolução Industrial, não podemos permanecer na confortável posição de exportador de comodities, permitindo que outras nações agreguem valor àquilo que produzimos.

Não é de hoje que privilegiamos a retórica, multiplicando cursos que ofertam diplomas, porém não garantem vida digna para os seus portadores. Não seguimos exemplos de luminares que mudaram a História e transformaram o mundo. É compreensível não tenhamos qualquer Nobel de real interesse em nossa mísera performance junto à civilização.

Penso no que significou uma vida como a de Antoine Lavoisier, o fundador ou pai da química moderna. Por óbvio, já existia um considerável estudo sobre uma química ainda disforme, pois muito vinculada à alquimia. Foram os alquimistas que criaram aparelhos e técnicas de destilação e cristalização. Só que não existia avaliação ou mensuração sistemática das reações químicas experimentadas por anônimos boticários, metalúrgicos e até mineiros.

Sequer se conhecia a composição da água ou de outras substâncias. Nem existia noção clara do que seriam elementos ou compostos. As teorias eram um tanto místicas e falava-se em flogisto, o princípio do fogo. Sabia-se que o flogisto era inapreensível. Não podia ser armazenado, demonstrado ou pesado. Mas isso também acontecia com a eletricidade. Ela era, desde o século XVIII, uma fonte de mistério e deslumbramento.

Lavoisier era homem prático, analítico e lógico. Verdadeiro filho do iluminismo, admirador dos enciclopedistas. Antes dos vinte e cinco anos já realizara um trabalho geológico pioneiro e mostrara grande habilidade química e polêmica. Oferecera um projeto de como iluminar uma cidade à noite e também elaborara estudo sobre a colocação e fixação de gesso. Jovem ainda, foi eleito para a Academia Francesa, um ninho de eruditos pensadores.

Há uma biografia de Lavoisier, escrita por Douglas McKie, e mencionada por Oliver Sacks no livro “Tio Tungstênio”, onde consta uma relação minuciosa das atividades científicas a ele atribuídas. Relacioná-las mostra o que representa vontade e talento reunidos, algo que a educação brasileira não se preocupa em incutir na juventude.

Desse rol constam a preparação de relatórios sobre abastecimento de água em Paris, prisões, mesmerismo, adulteração de sidra, local dos abatedouros públicos, as recém-inventadas “máquinas aerostáticas de Montgolfier”, que não eram senão os nossos conhecidos “balões”, branqueamento, tabelas de gravidade específica, hidrômetros teoria das cores, lâmpadas, meteoritos, lareiras sem fumaça, tapeçaria, gravação de brasões, papel, fósseis, uma cadeira para inválidos, um fole movido a água, tártaro, fontes sulfurosas, cultivo de couve e sementes de colza e os óleos delas extraídos, um raspador de tabaco, o funcionamento das minas de carvão, sabão branco, decomposição de nitro, produção de goma, armazenamento de água pura em navios, ar fixo, uma mencionada ocorrência de óleo em água de nascente. Problemas com os quais a humanidade se defronta até hoje.

Criou a lareira reverberatória, uma ova tinta e tinteiro, aos quais basta adicionar água para manter o suprimento de tinta, um pente de cartuchos para o Arsenal de Paris, explorou a mineralogia dos Pirineus, desenvolveu estudo para o tratamento de esgotos e para obviar o gás que eles exalam, descobriu líquidos extintores de incêndio e muita coisa mais.

A mocidade brasileira não se entusiasma com a escola chata e maçante que poderia ser sedutora, mostrasse a ela quantas coisas ainda precisam ser inventadas. Principalmente nesta era em que é preciso um comedimento no uso dos escassos e finitos recursos materiais.

Em 1772, Lavoisier leu sobre os estudos de Guyton de Morveau, que confirmaram, em experimentos marcados por precisão e cuidado extraordinários, que os metais aumentavam de peso quando submetidos a aquecimento. Uniu os elos de uma cadeia dispersa de conhecimentos e, depois de muitos experimentos, concluiu que a combustão era um processo químico. Isso o levou a transformar a linguagem da química para se adequar à nova teoria. E ele promoveu uma revolução na nomenclatura. Substituiu os termos antigos, pitorescos, simbólicos e até idílicos, por uma terminologia precisa, analítica e auto-explicativa.

Isso não impediu fosse guilhotinado pela Revolução Francesa. Lagrange, grande matemático, enunciou a dimensão da tragédia: “Foi preciso apenas um momento para decepar-lhe a cabeça e cem anos, talvez, não bastarão para produzir outra igual”.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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