Moro põe Lula contra a parede

Moro põe Lula contra a parede

Durante o interrogatório a que foi submetido por quase cinco horas, ex-presidente levou bronca do juiz da Lava Jato sobre declarações que deu em evento do PT na sexta-feira, 5, de que um dia poderá prender quem o acusa; 'Talvez o sr. não devesse fazer esse tipo de declaração', advertiu o magistrado

Fausto Macedo, Julia Affonso, Bruno Ribeiro, Ricardo Brandt e Luiz Vassallo

10 de maio de 2017 | 22h36

Lula. Foto: Reprodução

O juiz federal Sérgio Moro passou uma descompostura no ex-presidente Lula durante a audiência realizada nesta quarta-feira, 10. Moro fustigou o petista com seguidas indagações sobre declarações que ele fez durante em evento do PT na sexta-feira, 5. “Se eles não me prenderem logo, quem sabe um dia eu mando prendê-los pelas mentiras que eles contam’, disse Lula, na ocasião, o que provocou irritação entre os investigadores da Lava Jato.

“O que o sr. quis dizer com esse tipo de declaração?”, questionou o juiz durante o interrogatório a que Lula foi submetido na ação penal do caso triplex.

“Eu quis dizer o seguinte. A história não para com esse processo, a história um dia vai julgar se houve abuso ou não de autoridade nesse caso do comportamento, tanto da Polícia Federal quanto do Ministério Público, no meu caso.”

“E o sr. pretende mandar prender os agentes públicos?”, insistiu o magistrado na admoestação.
“Como é que vou saber, nem sei se eu vou tá vivo amanhã”, esquivou-se Lula.

“Foi o que o sr. afirmou lá (no evento do PT).”

“Uma força de expressão. O dia que o sr. for candidato o sr. vai ter muita força de expressão”, disse o petista.

“Acha apropriado um ex-presidente da República dizer isso?”, seguiu Moro.

“Acho que não, acho que não.”

Interrompido seguidas vezes por advogados de defesa, Moro destacou que sua pergunta tinha carárer jurídico. E repetiu. “O sr. acha apropriado esse tipo de declaração?’

Cristiano Zanin Martins, um dos defensores de Lula, anotou que a ação na qual o ex-presidente estava sendo interrogado se refere ao caso do triplex do Guarujá. “Manifestações políticas do ex-presidente não devem ser objeto desse depoimento”, disse Zanin.

Outro defensor de Lula, o criminalista José Roberto Batochio, disse que ‘vossa excelência só tem autoridade para julgar’.

Moro voltou a pôr Lula contra a parede. “Vou manter a minha pergunta jurídica. A afirmação feita pelo sr. no curso do processo, o sr. acha apropriado esse tipo de declaração pública?”

“Já falei que foi um ato de força de expressão. Sabe, primeiro presidente não manda prender.”

“E o sr. vai continuar fazendo esse tipo de declaração?”

“Não sei, não sei, não sei.”

“Que vai prender os agentes públicos?”, perguntou Moro.

“Não sei, não sei, não prendo. Presidente não prende ninguém, não conheço na história, a não ser no regime autoritário.”

“Então, talvez o sr. não devesse fazer esse tipo de declaração”, advertiu o juiz da Lava Jato.
Lula, então, falou dos grampos da Lava Jato que pegaram diálogos dele com a ex-primeira dama Marisa Letícia e outros familiares. “Com todo o respeito, todos nós devemos tomar cuidado com as declarações. O sr. sabe, por exemplo, da mágoa profunda, eu tenho mágoa profunda, conversas minhas com minha mulher. Eu nunca falei nada. Eu tô tranquilo, vamos esperar. O tempo se encarrega de contar a história.”

A denúncia do Ministério Público Federal sustenta que Lula recebeu R$ 3,7 milhões em benefício próprio – de um valor de R$ 87 milhões de corrupção – da empreiteira OAS, entre 2006 e 2012. As acusações contra Lula são relativas ao recebimento de vantagens ilícitas da empreiteira por meio do triplex 164-A no Edifício Solaris, no Guarujá (SP), e ao armazenamento de bens do acervo presidencial, mantido pela Granero de 2011 a 2016. O petista é acusado de lavagem de dinheiro e corrupção.

Moro aceitou a denúncia em 20 de setembro de 2016.

Fachada do Condomínio Solaris, no Guarujá. Foto: MOTTA JR./FUTURA PRESS

Triplex. O Edifício Solaris era da Cooperativa Habitacional dos Bancários (Bancoop), a cooperativa fundada nos anos 1990 por um núcleo do PT. Em dificuldade financeira, a Bancoop repassou para a OAS empreendimentos inacabados, o que provocou a revolta de milhares de cooperados. O ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto foi presidente da Bancoop.

A ex-primeira-dama Marisa Letícia (morta em 2017) assinou Termo de Adesão e Compromisso de Participação com a Bancoop e adquiriu ‘uma cota-parte para a implantação do empreendimento então denominado Mar Cantábrico’, atual Solaris, em abril de 2005.

Em 2009, a Bancoop repassou o empreendimento à OAS e deu duas opções aos cooperados: solicitar a devolução dos recursos financeiros integralizados no empreendimento ou adquirir uma unidade da OAS, por um valor pré-estabelecido, utilizando, como parte do pagamento, o valor já pago à Cooperativa.

Segundo a defesa de Lula, a ex-primeira-dama não exerceu a opção de compra após a OAS assumir o imóvel. Em 2015, Marisa Letícia pediu a restituição dos valores colocados no empreendimento.

Bens. A Lava Jato afirma que a OAS pagou durante cinco anos pelo aluguel de dez guarda-móveis usados para armazenar parte da mudança do ex-presidente Lula quando o petista deixou o Palácio do Planalto no segundo mandato. A empreiteira desembolsou entre janeiro de 2011 a janeiro de 2016, R$ 1,3 milhão pelos contêineres, ao custo mensal de R$ 22.536,84 cada.

Toda negociação com a transportadora Granero teria sido intermediada pelo presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto, que indicou a OAS como pagante com o argumento de que a empreiteira é uma “apoiadora do Instituto Lula.” Para investigadores da Lava Jato, os fatos demonstram “fortes indícios de pagamentos dissimulados” pela OAS em favor de Lula. Isso porque o contrato se destinava a “armazenagem de materiais de escritório e mobiliário corporativo de propriedade da construtora OAS Ltda”, mas na verdade os guarda-móveis atendiam a Lula.

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