Moro pede ao Supremo que torne público seu depoimento com acusações a Bolsonaro

Moro pede ao Supremo que torne público seu depoimento com acusações a Bolsonaro

Ex-ministro da Justiça e Segurança Pública enviou petição, por meio de seu advogado, ao ministro Celso de Mello em que solicita liberação de todo o conteúdo de seu longo relato à Polícia Federal em que atribui ao presidente suposta ingerência política na rotina da corporação

Fausto Macedo e Paulo Roberto Netto

04 de maio de 2020 | 18h19

A defesa do ex-ministro Sérgio Moro (Justiça e Segurança Pública) pediu ao ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), que libere a íntegra do depoimento de mais de oito horas que o ex-juiz prestou na Superintendência da Polícia Federal, no último sábado, 2.

“Considerando que a imprensa, no exercício do seu legítimo e democrático papel de informar a sociedade, vem divulgando trechos isolados do depoimento prestado pelo requerente em data de 02 de maio de 2020, esta defesa, com intuito de evitar interpretações dissociadas de todo o contexto das declarações e garantindo o direito constitucional de informação integral dos fatos relevantes – todos eles de interesse público – objeto do presente Inquérito, não se opõe à publicidade dos atos praticados nestes autos, inclusive no tocante ao teor integral do depoimento prestado pelo requerente”, afirma a defesa.

Documento

A petição foi assinada pelo advogado Rodrigo Sanchez Rios, defensor de Moro no inquérito que apura as acusações do ex-juiz da Lava Jato de ‘interferências políticas’ do presidente Jair Bolsonaro no comando da Polícia Federal.

Mais cedo, o Estado revelou que o depoimento do ex-ministro perante à PF citava o nome de três ministros  que seriam testemunhas de ameaças do ex-presidente contra Moro. Augusto Heleno (GSI), Walter Braga Netto (Casa Civil) e Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) estiveram presentes em reunião gravada pelo Planalto em que Bolsonaro ameaçou demitir Moro caso ele não trocasse a chefia da Polícia Federal. O encontro foi realizado no dia 23 de abril.

O presidente Jair Bolsonaro e o ex-ministro Sérgio Moro. Foto: Adriano Machado / Reuters

O assunto também teria sido abordado em outra reunião, no dia anterior (22 de abril), com outros ministro de Bolsonaro.

O procurador-geral da República, Augusto Aras, solicitou que Heleno, Braga Netto e Eduardo Ramos fossem ouvidos no inquérito e que seja entregue a gravação da reunião mencionada por Moro. A deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP) também pode ser ouvida. A parlamentar trocou mensagens com Moro no qual pedia ao ex-ministro que aceitasse a mudança de comando na PF. Em troca, ela influenciaria Bolsonaro a indicá-lo ao STF na vaga que abrirá em novembro.

O PGR também quer os delegados o ex-diretor-geral da PF, Maurício Valeixo, o ex-superintendente da PF no Rio, Ricardo Saadi, o superintendente no Amazonas, Alexandre Saraiva, o ex-chefe da PF em Minas Rodrigo Teixeira e o recém-indicado diretor-executivo da PF e ex-superintendente da PF no Rio, Carlos Henrique Oliveira.  Os cinco primeiros tiveram envolvimento com crise entre Moro e Bolsonaro no ano passado.

O caso também foi citado por Moro em depoimento à Polícia Federal, no sábado.

Oliveira foi convidado para assumir o número dois da PF pelo novo diretor da corporação, Rolando Alexandre de Souza, em uma das primeiras ações do novo diretor-geral após ser empossado cerca de 20 minutos depois de ter a nomeação publicada no Diário Oficial da União. A mudança levou à uma troca de comando na PF do Rio, vista com interesse por Bolsonaro e seus filhos.

Conversas. Peritos da Polícia Federal extraíram do celular do ex-ministro mensagens trocadas com Bolsonaro, incluindo as que foram deletadas para aumentar o espaço de armazenamento do aparelho. Uma varredura completa foi realizada e localizou até áudios enviados por aplicativos de mensagem. Os peritos também copiaram mensagens trocadas entre Moro e a deputada Carla Zambelli.

Moro prestou depoimento de mais de oito horas na sede da PF no inquérito que investiga suas acusações de tentativas de interferência política de Bolsonaro na chefia da corporação. O Planalto se preocupa com o andamento de inquéritos que apuram esquemas de divulgação de ‘fake news’ e financiamento de atos antidemocráticos realizados em abril, em Brasília.

Mais cedo, Bolsonaro comentou o depoimento de Moro e a entregar de conversas à Polícia Federal. Uma delas é a já revelada publicamente em que o presidente encaminha um link do portal O Antagonista sobre inquérito do Supremo mirar aliados do governo com a mensagem: ‘Mais um motivo para a troca’. Segundo o presidente, as acusações de Moro se tratam de uma ‘fofoca’.

“Tem um print do Antagonista. Eu escrevi embaixo “Mais um motivo para troca”. Estão me acusando por causa disso que eu estou interferindo na Polícia Federal. Estou dizendo que isso é fofoca. O complemento vem depois”, disse.

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