Moro leva para a transição delegados pioneiros da Lava Jato

Moro leva para a transição delegados pioneiros da Lava Jato

Érika Marena e Rosalvo Ferreira Franco, delegados da Lava Jato, foram os primeiros nomes anunciados pelo ex-juiz para integrar equipe de transição

Breno Pires / BRASÍLIA e Ricardo Brandt / SÃO PAULO

20 Novembro 2018 | 05h00

O juiz Sérgio Moro chega ao restaurante do CCBB, em Brasília, para almoçar Foto: ERNESTO RODRIGUES/ESTADÃO

Futuro ministro da Justiça no governo Jair Bolsonaro, o ex-juiz Sérgio Moro confirmou nesta segunda-feira, 19, os delegados da Polícia Federal Érika Marena e Rosalvo Ferreira Franco, pioneiros da Operação Lava Jato, como os primeiros nomes na equipe de transição. Ambos ajudaram a construir e consolidar o modelo de apuração adotado na Lava Jato, com forças-tarefa para assuntos prioritários. No início do mês, Moro disse que pretende adotar esse estilo para combater o crime organizado em todo o País. Deflagrada em março de 2014, a Lava Jato é considerada a maior investigação contra a corrupção realizada no Brasil.

Segundo fontes ouvidas pelo Estado, Érika pode ser escolhida por Moro para comandar o órgão estratégico para investigações internacionais no Ministério da Justiça e Segurança Pública, o Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional (DRCI).

Um terceiro indicado para integrar a equipe de Moro na transição é Fabiano Bordignon, chefe da PF em Foz do Iguaçu, que não atuou na Lava Jato. Segundo fontes ouvidas pelo Estado, Bordignon é cotado para assumir o Departamento Penitenciário Nacional (Depen). Ele já foi diretor da Penitenciária Federal de Catanduvas, no Paraná, e em Foz do Iguaçu (PR) investigou a rota do crack no Brasil — a cidade se tornou um ponto de entrada da droga no País nos últimos anos.

Com a exoneração publicada na segunda, 19, no Diário Oficial da União, o ex-juiz Moro chegou a Brasília logo pela manhã e indicou que está perto de definir o próximo diretor-geral da PF, que substituirá Rogério Galloro. O principal cotado é o delegado Maurício Valeixo, sucessor de Rosalvo e atual superintendente da PF no Paraná, com quem Moro mantém boa relação desde a década de 1990.

Em breve conversa com jornalistas após almoçar no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), onde funciona a transição, Moro disse que está cuidando da formação do ministério e do organograma de atividades na transição. “No momento certo os anúncios públicos serão feitos”, disse o futuro ministro. Estavam no almoço Érika, Rosalvo e Bordignon, além de Flávia Blanco, que pode ser chefe de gabinete, e o agente Marcos Koren, que supervisiona a segurança de Moro na capital federal.

Abordado pela reportagem, Rosalvo disse que está colaborando na transição e que continuará à disposição do futuro ministro. Os outros dois delegados não falaram com a reportagem ontem.

Moro segue em Brasília até quinta-feira e ainda pode se reunir com os ministros Torquato Jardim, da Justiça, e Raul Jungmann, da Segurança Pública — pastas que serão fundidas na sua gestão.

Histórico
Atual superintendente da PF em Sergipe, Érika Marena participou da origem da Lava Jato ao lado do delegado Marcio Anselmo. Na época, a Superintendência do órgão no Paraná era comandada por Rosalvo, que deixou o posto no fim do ano passado após quatro anos. Os dois nomes devem fazer parte do Ministério da Justiça na gestão de Moro.

A possível ida de Marena para a pasta foi informada pela Coluna do Estadão na sexta-feira, 16. A delegada também comandou a Operação Ouvidos Moucos, que ficou marcada pela prisão e posterior suicídio do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Luiz Carlos Cancellier.

A delegada Erika Marena, superintendente da PF em Sergipe, durante almoco com o Juiz Sergio Fernando Moro, no restaurante do CCBB. Foto: Dida Sampaio/Estadão

Érika Marena atuou desde o início na Lava Jato, ao lado do delegado Marcio Adriano Anselmo – outro nome especulado como possível integrante da equipe de Moro em 2019. Foi ela quem batizou a operação, de que fez parte até o fim de 2016. A partir de então, atuou nos casos de Santa Catarina e, em dezembro de 2017, ocupou a Superintendência da PF em Sergipe, nomeada pelo então diretor-geral da PF Fernando Segóvia. Antes da Lava Jato, havia trabalhado no caso Banestado, nos anos 2000, no qual também atuou Moro. Foi procuradora do Banco Central e técnica da justiça eleitoral.

A conduta da delegada foi questionada na Operação Ouvidos Moucos, deflagrada em setembro de 2017 para combater supostos desvios de dinheiro em programas de ensino a distância da UFSC. No mês da morte de Cancellier, a família apresentou uma queixa-crime ao Ministério da Justiça contra a delegada pedindo instauração de procedimento administrativo para apurar a responsabilidade por eventuais abusos e excessos. Uma sindicância da Corregedoria da PF sobre a conduta da delegada concluiu que não houve irregularidade nos procedimentos adotados na Operação Ouvidos Moucos. Os ministérios da Justiça e da Segurança Pública não responderam à reportagem se houve arquivamento da queixa-crime.

A delegada tem, no entanto, bastante prestígio na Polícia Federal. Chegou a ser eleita como primeiro nome na lista tríplice formulada pela Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF), em maio de 2016, para apresentar ao governo Temer, como sugestão para indicação à Diretoria-Geral da Polícia Federal. Ela teve 1.065 votos. Naquele ano, Temer escolheu como diretor-geral Fernando Segóvia.

Sobre a Ouvidos Moucos, a ADPF afirmou na época que “não se pode admitir que terceiros se utilizem da dor e comoção da família para tentar macular a imagem da Polícia Federal”. A chegada para atuar na equipe de transição de Moro indica que ele também não considera que houve falhas na conduta da delegada federal.