Moro fala às 11 horas se fica ou renuncia

Moro fala às 11 horas se fica ou renuncia

Aliados do ministro da Justiça e Segurança Pública informam que ele vai abandonar governo Bolsonaro em meio à crise que levou à queda do diretor geral da Polícia Federal, delegado Maurício Leite Valeixo, seu braço direito desde a Operação Lava Jato

Fausto Macedo e Pepita Ortega

24 de abril de 2020 | 09h26

O ministro Sérgio Moro e o presidente Jair Bolsonaro, em evento da Polícia Federal em Brasília. Foto: Marcos Côrrea / Presidência da República

O ministro Sérgio Moro (Justiça e Segurança Pública) está decidido a abandonar o posto no governo Bolsonaro. Em meio à crise que levou à queda do diretor geral da Polícia Federal delegado Maurício Leite Valeixo, o ministro anuncia sua decisão às 11 horas desta sexta, 24, em Brasília. Aliados do ex-juiz cravam que ele vai renunciar.

O pronunciamento foi marcado após a publicação da exoneração de Valeixo no Diário Oficial da União, na madrugada desta sexta, 24. O documento diz que a troca no comando da PF se deu ‘a pedido’ e traz os nomes do presidente e do ministro da Justiça. No entanto, Moro não assinou a exoneração.

Moro não abria mão de Valeixo, seu braço direito desde a Operação Lava Jato, mas Bolsonaro vinha fazendo pesada pressão, incomodado com a autonomia da PF.

Valeixo foi pivô de crises entre o ministro da Justiça e o presidente, tendo esta mais recente culminado no aviso de Moro de que deixaria a equipe caso houvesse imposição do novo nome para a diretoria-geral da Polícia Federal.

A ameaça de demissão provocou fortes reações nos três Poderes e a ala militar do governo entrou em campo na tentativa de segurar Moro, o mais popular ministro da Esplanada.

Troca na PF

Em reunião pela manhã desta quinta, 23, no Palácio do Planalto, Bolsonaro disse a Moro que a mudança no comando da PF já está decidida e cabe ao presidente definir quem será o substituto de Valeixo. O Estado apurou que Moro não aceita uma troca ‘de cima para baixo’ e defende o direito de fazer a escolha. Tradicionalmente, ela é feita pelo ministro da Justiça.

Na prática, Valeixo já havia tratado com Moro, no início do ano, de sua saída do cargo de diretor-geral da corporação. Na conversa com o ministro, o delegado demonstrou exaustão no cargo, reportando-se a um 2019 tenso no comando da PF.

Moro tentava, porém, encontrar um nome de sua confiança para o posto, quando foi surpreendido pelo comunicado de Bolsonaro de que mudanças na corporação ocorreriam nos próximos dias.

A decisão do presidente de mudar o comando da PF ocorre dias depois de o Supremo Tribunal Federal (STF) autorizar a abertura de inquérito para investigar quem organizou e financiou manifestações em defesa da ditadura, no domingo. Bolsonaro participou de um ato com esse teor diante do QG do Exército, em Brasília. Ficou irritado depois que alguns de seus aliados entraram na mira da Polícia Federal.

 Um dos nomes cotados para assumir o comando da Polícia Federal é o do atual diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Alexandre Ramagem.

Desgaste

Há no Planalto o sentimento de que a relação entre Moro e Bolsonaro vem se deteriorando com rapidez. No auge da crise do coronavírus, o presidente chegou a dizer, em conversas reservadas, que o ministro da Justiça era “egoísta” e só pensava em si próprio. Em outra ocasião declarou que usaria sua caneta contra pessoas do governo que “viraram estrelas”. Para interlocutores do presidente, o recado mirava não apenas Mandetta, mas também Moro.

Recentemente, Bolsonaro tentou dividir o Ministério da Justiça em dois, tirando de Moro a Segurança Pública. Além disso, o presidente não planeja mais, ao menos por enquanto, indicar Moro para uma vaga no Supremo.

Repercussão

Ex-integrante da força-tarefa da Operação Lava Jato em Curitiba, Carlos Fernando dos Santos Lima atacou o presidente Bolsonaro ontem após a divulgação da notícia de que o ministro poderia deixar o governo. Santos Lima, que trabalhou com Moro também no Caso Banestado, afirmou que Bolsonaro nunca foi “real apoiador do combate à corrupção”.

“Moro deve sair. Bolsonaro não é correto, não tem palavra, deixou o ministro sem qualquer apoio no Congresso tanto nas medidas contra a corrupção quanto durante o episódio criminoso da Intercept”, escreveu o procurador aposentado.

Associações que representam policiais federais também reagiram à troca que Bolsonaro pretende fazer na diretoria-geral. “ Toda hora, se há uma especulação sobre troca na Polícia Federal, há esse problema todo”, afirmou Evandir Felix Paiva, presidente da Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal. “Infelizmente, nós vamos viver assim enquanto não aprovar o mandato (para o chefe da PF)”, concluiu.

Segundo Paiva, esse tipo de problema seria menor se o Congresso tivesse aprovado projetos sobre autonomia da PF. Em nota, a Federação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (Fenadepol) lembra que Valeixo é o terceiro diretor-geral da PF nos últimos três anos. “A cada troca ou menção à substituição, uma crise institucional se instala”, diz o texto, citando reflexos no combate à corrupção.

O presidente da Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais (APCF), Marcos Camargo, disse ontem que o presidente não pode ter “carta branca para destituir, sem critérios claros, os ocupantes das funções”.

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