Moro diz que ‘político desonesto tem vantagens que político honesto não tem’

Em aula inaugural da Escola da Magistratura Federal no Paraná, juiz da Lava Jato, Sérgio Moro, alerta que ' dinheiro sujo numa economia não pode ser subdimensionado'

Redação

03 de março de 2015 | 00h04

Por Julia Affonso, Fausto Macedo e Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba

O juiz federal Sérgio Moro, que conduz todas as ações da Operação Lava Jato, disse na noite desta segunda feira, 2, que “um político desonesto tem vantagens que um político normalmente não tem”.

Moro proferiu a aula inaugural da Escola da Magistratura Federal do Paraná (Esmafe/PR). O tema foi lavagem de dinheiro.

O juiz, que é professor da instituição, defendeu que as novas táticas de combate à lavagem de dinheiro permitam às autoridades criminais a terem acesso aos chefes de complexas organizações criminosas. “Fatalmente o dinheiro vai chegar em quem tem esse poder de controle. Quem tem o poder desse controle sobre o grupo criminoso organizado.”

 

Sérgio Moro. Foto: JF Diorio/Estadão

Sérgio Moro. Foto: JF Diorio/Estadão

Sérgio Moro falou de improviso durante pouco mais de uma hora. Ele não falou sobre o caso Lava Jato, investigação sobre corrupção na Petrobrás, tomada por um cartel de empreiteiras entre 2003 e 2014.

Ao apontar as dificuldades de rastreamento de fortunas ocultas o juiz observou que “o dinheiro não tem cheiro”.

“É importante a criminalização da lavagem de dinheiro, pelo menos, para tentar estabelecer um a barreira, claro que essa barreira é permeável, não existe possibilidade de isolar completamente o dinheiro sujo, mas é preciso diminuir a chances de êxito daqueles que se utilizam no domínio político de recursos criminosos.”

Moro alertou para o poder econômico que se alia ao crime. “Um outro objetivo normalmente apontado como razão para criminalização da lavagem de dinheiro diz respeito à necessidade em você estabelecer uma barreira entre o mundo do crime e o mundo fora do crime, especialmente entre crime e economia.”

“O poder do dinheiro de origem criminosa, do dinheiro sujo numa economia não pode aí ser subdimensionado”, disse. “Por exemplo, uma empresa do domínio econômico, que na prática de sua atividade se valha de recursos obtidos por meios criminosos, vai ter dentro do mercado do domínio econômico cada vez mais competitivo vantagens que as empresas que atuam de maneira limpa não vão ter.”

O juiz argumentou. “O emprego de recursos criminosos do domínio econômico gera vantagens competitivas para empresas criminosas que devem, de alguma forma, ser compensadas com a criminalização da lavagem de dinheiro.”

“É importante que o criminoso seja obrigado a ficar sentado sobre o seu dinheiro sujo, que esse dinheiro sujo não possa ser usado para qualquer finalidade e, especialmente, no domínio econômico”, disse Sérgio Moro. “Isso também é válido para outras situações, em particular também para o domínio político.”

“Nós sabemos que também no mundo político existe um mundo extremamente competitivo. Dentro de um regime democrático um político, um agente político, muitas vezes tem que ganhar apoio popular para suas ideias.”

“E como normalmente, não necessariamente, mas numa democracia de massas se faz necessário aí grandes dispêndios para transmitir essas ideias também um político desonesto tem vantagens que um político normalmente não tem. Ele pode se valer de recursos de origem criminosa que o político honesto não pode se valer”, prosseguiu Moro. “Daí também importante a criminalização da lavagem de dinheiro, pelo menos para tentar se estabelecer uma barreira.”

O juiz citou o caso do mensalão e falou do ex-presidente da Câmara, João Paulo Cunha (PT), condenado por corrupção e peculato. “A propina nesse caso foi paga com dinheiro sujo”, disse Moro.

POR QUESTÕES TÉCNICAS, O ÁUDIO COMEÇA A FUNCIONAR A PARTIR DO 4º MINUTO DO VÍDEO.

 

 

 

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