Moro diz que Paulo Guedes o procurou em 23 de outubro, mas convite foi após as eleições

Moro diz que Paulo Guedes o procurou em 23 de outubro, mas convite foi após as eleições

Juiz da Lava Jato revela passo a passo como foi o contato com presidente eleito Jair Bolsonaro

Mateus Fagundes, Luciana Dyniewicz, Daniel Weterman e Daniel Galvão

06 Novembro 2018 | 18h20

Sérgio Moro e Paulo Guedes. Foto: Wilton Júnior/Estadão

O juiz federal Sérgio Moro disse nesta terça-feira, 6, que foi sondado por Paulo Guedes, futuro ministro da Economia, em 23 de outubro para vir a ocupar um cargo no governo de Jair Bolsonaro (PSL), sem que nada fosse formalizado naquela data, que é posterior à liberação, por parte do magistrado, da delação do ex-ministro Antônio Palocci, na semana que antecedeu o primeiro turno, em 7 de outubro.”Argumentei que poderia tratar de eventual convite após as eleições”, afirmou Moro.

Na coletiva, realizada em Curitiba, Moro também explicou a confusão que, em 2017, não reconheceu Bolsonaro em um aeroporto e que o fato foi explorado politicamente por adversários do agora presidente eleito. “Liguei depois para pedir desculpas”, disse.

Moro contou que apenas na quinta da semana passada,1.º de novembro, conversou mais longamente com o presidente eleito. “(Bolsonaro) Me pareceu uma pessoa bastante ponderada. Eu disse a ele que para integrar governo tem de ter certa convergência. Ainda que não haja concordância absoluta de ideias entre nós, há a possibilidade de um meio-termo”, afirmou.

Moro afirmou também que o convite não tem “nada a ver” com o processo que envolve o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso desde 7 de abril em Curitiba. De acordo com Moro, o processo de Lula foi julgado por ele em 2017, quando “não havia qualquer expectativa de que então deputado Bolsonaro fosse eleito presidente”.

Moro disse ainda que, apesar das críticas de petistas, não pode pautar a vida dele “com base em fantasia, em álibi falso de perseguição política”. “O ex-presidente Lula foi condenado e preso por ter cometido um crime. O que houve foi uma pessoa que lamentavelmente cometeu um crime e respondeu na Justiça”, argumentou.

Moro também disse que políticos dos mais variados espectros políticos foram condenados no âmbito da Lava Jato. “Tivemos a condenação do ex-presidente da Câmara (Eduardo Cunha) e do ex-governador do Rio (Sérgio Cabral)”, citou.

Ele ainda negou que tenha havido um “vazamento proposital” da colaboração premiada do ex-ministro Antonio Palocci durante a eleição presidencial. “Quando se divulga notícia falsa em eleição, é fake news. Quando são verdade, isso é direito à informação”, afirmou Moro em coletiva de imprensa.

O juiz justificou a divulgação, feita no dia 1º de outubro, alegando que havia um processo no qual ele precisava proferir uma sentença após Palocci ter fechado delação com a Polícia Federal. “Não tinha sequer o direito de, por conta das eleições, deixar de tornar públicos aqueles fatos quando havia necessidade do processo”, comentou.

Equipe de transição

Moro deverá fazer parte da equipe de transição, que começou a trabalhar na segunda-feira no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em Brasília.

Os primeiros nomes da equipe, que terá 50 integrantes remunerados, foram divulgados na segunda-feira. O nome de Moro, porém, deverá estar em uma das últimas listas – ainda não há confirmação de data de publicação. O juiz está de férias e embarca amanhã para Brasília para as primeiras reuniões com o futuro governo.