Moro diz que ofensas de Bolsonaro refletem ‘estilo populista, com sinais de autoritarismo’

Moro diz que ofensas de Bolsonaro refletem ‘estilo populista, com sinais de autoritarismo’

Ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, chamado de 'covarde' pelo presidente, manda um recado a seu desafeto: 'Há tempo para mudar de postura se ele quiser'

Pepita Ortega, Rayssa Motta e Fausto Macedo

01 de junho de 2020 | 15h44

O presidente Jair Bolsonaro e o ex-ministro Sérgio Moro. Foto: Adriano Machado / Reuters

Após ser chamado de covarde pelo presidente Jair Bolsonaro na manhã desta segunda, 1º, o ex-ministro Sérgio Moro afirmou que as ofensas do chefe do Executivo ‘refletem o estilo populista, com sinais de autoritarismo’ que tem caracterizado seu governo. Segundo Moro, as declarações de Bolsonaro ‘apenas ilustram seu sentimento de inadequação’.

O ex-juiz da Laja Jato já havia divulgado nota rebatendo o que chamou de ‘bravatas’ de Bolsonaro. Em frente ao Palácio da Alvorada, o presidente acusou o ex-ministro da Justiça e Segurança Pública de dificultar a posse e o porte de armas. Na reunião ministerial de 22 de abril, Bolsonaro pressionou o ex-ministro a assinar uma portaria para ampliar o limite para a compra de munições no País e defendeu armar a população contra governantes que impõem quarentena em estados e municípios.

Em resposta, Moro disse em nota que o presidente tentou utilizar políticas de flexibilização de posse e porte de armas para ‘promover espécie de rebelião armada contra medidas sanitárias impostas por Governadores e Prefeitos’. O ex-juiz disse ainda que as ‘inverdades’ de Bolsonaro são ‘lamentáveis’ e afirmou: “Há tempo para mudar de postura se ele quiser.”

A apoiadores, Bolsonaro também disse que Moro estava ‘alinhado com uma outra ideologia’, citando ainda uma outra portaria, que previa prisão para quem descumprisse medidas de distanciamento social contra a covid-19, para atacar o ex-ministro, a quem chamou de covarde. O texto, que havia sido publicado em conjunto com o ex-ministro da Saúde, Luís Henrique Mandetta, foi revogado pelo novo ministro da Justiça, André Mendonça.

Sobre tal declaração do presidente, Moro declarou ter procurado Secretários de Segurança dos Estados e do Distrito Federal, durante a pandemia, na tentativa de ‘evitar ao máximo o uso da prisão como sanção ao descumprimento de isolamento e quarentena’, mas reconheceu que a medida está prevista na Constituição para aqueles que, cientes de estarem infectados, não cumpram isolamento.

Na nota divulgada mais cedo, o ex-ministro criticou também a revogação de normas que tratam sobre controle de armas e munições, sob o risco de ‘desvio do armamento destinado à proteção do cidadão comum para beneficiar criminosos’. No mês passado, por determinação do presidente, o Ministério da Defesa revogou três portarias do Exército Brasileiro que, na prática, dificultavam o acesso do crime organizado a munições e armamentos extraviados das forças policiais do País. O Ministério Público Federal acionou a Justiça para que as medidas sejam retomadas.

A falta de alinhamento do ex-juiz da Lava Jato com a política armamentista do governo já havia sido expressa pela deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP). Em depoimento prestado à Polícia Federal, a parlamentar afirmou que o presidente Jair Bolsonaro ‘não confiaria’ no ex-diretor-geral da corporação, Maurício Valeixo, porque Moro era um ‘desarmamentista’. Zambelli foi convocada a depor no âmbito do inquérito aberto no Supremo Tribunal Federal (STF) para apurar se houve tentativa de interferência indevida de Bolsonaro na PF, como apontou Moro ao deixar o governo.

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