Moro diz que Lei do Abuso será ‘um retrocesso’

Moro diz que Lei do Abuso será ‘um retrocesso’

Juiz da Lava Jato declara em audiência pública na Câmara que projeto o preocupa porque favorece o 'crime de interpretação'

Julia Affonso, Mateus Coutinho, Julia Lindner e Igor Gadelha

04 de agosto de 2016 | 12h48

BRASÍLIA DF BSB 04/08/2016 POLÍTICA / MORO/CONGRESSO - A Comissão Especial da Câmara que analisa o projeto que estabelece medidas contra a corrupção reúne-se nesta quinta-feira, a partir das 9h, para ouvir o juiz Federal Sérgio Moro, em Brasília. FOTO André Dusek/ESTADÃO

O juiz Sérgio Moro. FOTO André Dusek/ESTADÃO

O juiz federal Sérgio Moro, símbolo da Operação Lava Jato, afirmou na Câmara, em audiência pública, nesta quinta-feira, 4, que a Lei do Abuso – como é conhecido o projeto que prevê severas punições a juízes, procuradores e delegados – favorece o ‘crime de hermenêutica’, ou seja, o magistrado será punido por dar uma interpretação da lei que, ao final do processo, não será acolhida.

O projeto tem apoio expresso do senador Renan Calheiros (PMDB/AL), alvo da Lava Jato.

“Claro que autoridades cometem abusos e devem ser punidas, mas a redação atual do projeto, talvez não tenha sido ideia inicial dos autores, favorece o crime de hermenêutica”, disse Moro aos deputados da Comissão Especial da Câmara formada para discutir o projeto 10 Medidas contra a Corrupção, iniciativa do Ministério Público Federal.

“Acredito, realmente, que seria um retrocesso a sua aprovação”, afirmou Moro em relação à Lei do Abuso.

Para o juiz da Lava Jato, eventual aprovação do texto que ‘amordaça’ sua classe e a dos procuradores e delegados seria uma ‘sinalização no sentido contrário’ à aceitação do projeto 10 Medidas.

“É preocupante, não só para a imagem do Parlamento como para a nossa democracia”, alertou o juiz da Lava Jato.

Moro descartou taxativamente a possibilidade de buscar mandato eleitivo. “Nenhuma chance, sou juiz profissional.”

O juiz advertiu que o elevado índice de corrupão no País ‘afasta investidores que não querem concorrer em desigualdade de condições de quem se dispõe a fazer jogo sujo’.

O juiz observou que a corrupção e as trapaças fazem o cidadão ‘perder a fé nas instituições’.

Ele disse, ainda. “A corrupção sistêmica não é uma doença tropical.”

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