Morin, cada vez melhor

Morin, cada vez melhor

José Renato Nalini*

08 de julho de 2021 | 06h00

Hoje, 8 de julho, é o dia em que o polímata Edgar Morin completa 100 anos. Lúcido, coerente e entusiasta. Continua a ensinar e a propor um mundo melhor.

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Tem noção de que passamos por uma fase aflitiva da história da humanidade. Degradação da biosfera, surgimento de populismos, aumento da violência, conflitos étnicos, religiosos, políticos e sociais. Diluem-se as instituições tradicionais e vive-se no globo inserto em uma sucessão de crises.

Edgar Morin tem pregado a necessidade de uma conversão dos homens. Para ele, há dois caminhos a serem trilhados: o abismo ou a metamorfose.

Em direção ao primeiro, nem é preciso fazer força. A miséria humana nos empurra nesse rumo. Já a metamorfose necessita de atuação empenhada e firme, daquele resíduo de lucidez que ainda parece habitar a Terra.

O grande pensador contemporâneo é antropólogo, sociólogo e filósofo. Publicou inúmeros livros, dentre os quais a série O Método, Meus demônios, Meu caminho, Cultura e barbárie europeias, A cabeça bem feita, A religação dos saberes, O mundo moderno e a questão judaica, Ciência com consciência, Amor poesia sabedoria, Rumo ao abismo? Edwige, a inseparável, A via para o futuro da humanidade e Meus filósofos, dentre tantos outros.

Há décadas me utilizo de seu pensamento para a reflexão pessoal e para continuar a aprender com os alunos. Já me servi bastante da instigante ideia formulada para enfrentar os desafios do século 21, desenvolvida durante jornadas temáticas idealizadas e dirigidas por Morin em março de 1998, na França. Procurava-se mostrar a possibilidade de dar resposta às tormentosas questões que o conhecimento enfrentará no decorrer do terceiro milênio.

Chamei o aniversariante de polímata e ele merece qualificativo tal. No livro “A via”, ele aborda a regeneração do pensamento político, nas políticas da humanidade e da civilização, a questão democrática, a demografia, os povos indígenas, a via ecológica, a água, a via econômica, desigualdade e pobreza, a desburocratização generalizada, justiça e educação e uma série de outros temas, todos urgentes e fundamentais. Nada escapa a sua percuciente capacidade analítica.

Numa interessante pós conclusão, ele parte da consideração de que parece inacreditável a aventura humana que transcorre há mais de 6 bilhões de anos e que começou na África. Menciona as evoluções simultaneamente descontínuas e contínuas, que desenvolveram a mão e o cérebro e fizeram surgir a cultura humana com a invenção da linguagem de dupla articulação. Sem isso, não estaríamos aqui.

E assim prossegue a discorrer sobre várias épocas e observa que em todas elas, “a maioria dos seres humanos permaneceu como carneirinhos submissos, suportando tarefas monótonas destinadas à repetição permanente do ciclo de nascimentos e de  mortes, mesmo que não se deva esquecer que, antes de serem adultos domesticados, os jovens fervilham de desejo de aventura: como não surpreender-se e admirar que homens como Alexandre, Gengis Khan, Tamerlan, Buda, Jesus, Paulo de Tarso, Maomé, tenham mudado o curso da História, que minorias venturosas e aventureiras tenham transposto horizontes, tenham ido buscar além do visível, além do pensável e tenham conduzido a humanidade nessa prodigiosa aventura que é sua história?”

Morin acredita que uma humanidade perfeita não poderia existir. para ele “o mundo não pode se produzir a não ser na imperfeição (um mundo perfeito teria sido uma máquina determinista imóvel e cega); a vida não pode se produzir a não ser na inevitabilidade destrutiva da morte”.

Com ele me convenci de que a educação merece urgente reforma e mais intenso carinho por parte de cada indivíduo e da sociedade como um todo. Aprendi que é melhor ter “uma cabeça bem feita” do que uma cabeça repleta de informações nem sempre úteis.

O mais importante, ele me ensinou que “a esperança foi ressuscitada no próprio coração da desesperança.  E esperança não é sinônimo de ilusão. A verdadeira esperança sabe que não tem certeza, mas sabe que se pode traçar um caminho ao andar (“caminhante, não existe caminho, o caminho se faz ao andar). A esperança sabe que, embora improvável, a salvação pela metamorfose não é impossível”.

Parabéns, Edgar Morin!

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e Presidente da Academia Paulista de Letras – gestão – 2021- 2022

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