Moreira Franco intermediou propinas para Temer, afirma juiz

Moreira Franco intermediou propinas para Temer, afirma juiz

Ao mandar prender o ex-presidente, juiz Marcelo Bretas, da Operação Lava Jato no Rio, destacou trecho da investigação da Procuradoria que atribui ao ex-ministro das Minas e Energia papel de 'intermediário' de recursos ilícitos supostamente repassados ao emedebista

Luiz Vassallo e Julia Affonso/SÃO PAULO e Renato Onofre e Fabio Serapião/BRASÍLIA

21 de março de 2019 | 13h27

Michel Temer e Moreira Franco. Foto: REUTERS/Adriano Machado

O ex-ministro das Minas e Energia Moreira Franco (MDB) era o encarregado da ‘intermediação’ de propinas ao ex-presidente Michel Temer, afirmou o juiz federal da 7ª Vara Criminal do Rio, Marcelo Bretas, ao decretar a prisão dos emedebistas na Operação Lava Jato. As investigações miram supostas propinas em obras da usina nuclear de Angra 3 e tem como base, entre outros indícios, a delação premiada do ex-executivo da Engevix Jose Antunes Sobrinho.

Documento

O magistrado dá conta de que Sobrinho relata, em delação premiada, que, além do amigo de Temer, o Coronel Lima, também preso preventivamente nesta quinta, 21, o ex-presidente teve também como intermediário ‘outro investigado que gozava de grande prestígio nos governos da União passados, o ex ministro Moreira Franco.

Segundo Bretas, o delator narrou que no segundo semestre de 2014, Coronel Lima o procurou informando que ele deveria fazer doações para a cúpula do PMDB’.

Michel Temer. Foto: Felipe Rau/ESTADÃO

“Contudo o colaborador (Sobrinho/Engevix) apontou que não tinha margem nos seus contratos em andamento com a Eletronuclear (Angra 3) para acumular o montante. Note que, como parece, e foi revelado, pelo colaborador, sua empresa Engevix seguia realizando todo o projeto eletromecânico 1, enquanto parte dos valores pagos pelo contrato com a Eletronuclear já eram direcionados à empresa ARGEPLAN, sócia formal da AF Consult do Brasil”.

Consta nos autos da decisão que mandou prender os três, e outros investigados, que para ‘atender ao pedido de R$ 1.000.000,00 (um milhão) feito pelo Coronel Lima, Sobrinho assevera que tentou obter recursos com Moreira Franco, com quem tinha bom relacionamento, por meio dos contratos ligados à Secretaria de Aviação Civil, de responsabilidade do segundo a época’.

“Nesse ponto, mostra-se necessária uma breve digressão sobre a aparente relação próxima e espúria de MOREIRA FRANCO com Michel Temer, bem como os estratagemas supostamente empreendidos pelo primeiro a fim de viabilizar a solicitação de Sobrinho, ou seja, providenciar para que a empresa do colaborador pudesse faturar em outros contratos públicos para reverter parte dos valores à organização criminosa”, anota.

De acordo com magistrado, a Procuradoria entregou ‘ainda transcrição de conversas entabuladas por Moreira Franco e Sobrinho (coletadas do aparelho celular do colaborador), datadas de maio a julho de 2015, capazes de demonstrar a relação de compadrio entre eles, apontando, inclusive, uma possível tentativa de MOREIRA de articular junto à Caixa Econômica Federal favorecimento aos interesses da Engevix, de José Antunes’.

Michel Temer. Foto: Werther Santana/Estadão

O juiz ainda chama atenção para um ‘detalhe importante’: Moreira Franco já havia se desligado da Presidência da Caixa Econômica Federal, ‘mas parece que mantinha ainda grande influência sobre a instituição’.

VEJA AS CONVERSAS ENTRE MOREIRA FRANCO E JOSÉ ANTUNES SOBRINHO:

COM A PALAVRA, O CRIMINALISTA ANTONIO CLAUDIO MARIZ DE OLIVEIRA

“A decretação da prisão preventiva de Michel Temer surpreendeu o mundo jurídico e a sociedade brasileira com certeza tendo em vista a sua flagrante desnecessidade. Não se tem conhecimento de nenhum fato que autorizasse essa medida de força uma vez que Michel Temer, desde que saiu da Presidência está, como sempre esteve, pronto a responder a qualquer intimação da Justiça ou da polícia, não tendo sido, no entanto, procurado por nenhuma autoridade policial ou judiciária.”

O presidente estava levando uma vida de inteiro conhecimento público, diariamente em seu escritório e em sua casa à noite. Não estava programando nenhuma viagem, estando, portanto, isento de qualquer medida que cerceasse a sua liberdade. Por tais razões sua prisão nos parece absolutamente desnecessária.”

COM A PALAVRA, O ADVOGADO EDUARDO CARNELÓS, QUE DEFENDE MICHEL TEMER

O advogado Eduardo Carnelós, que defende Michel Temer, afirmou que a prisão do ex-presidente ‘é uma barbaridade’.

A prisão do ex-Presidente Michel Temer, que se deu hoje, constitui mais um, e dos mais graves!, atentados ao Estado Democrático e de Direito no Brasil.

Os fatos objeto da investigação foram relatados por delator, e remontam ao longínquo 1° semestre de 2014. Dos termos da própria decisão que determinou a prisão, extrai-se a inexistência de nenhum elemento de prova comprobatório da palavra do delator, sendo certo que este próprio nada apresentou que pudesse autorizar a ingerência de Temer naqueles fatos.

Aliás, tais fatos são também objeto de requerimento feito pela Procuradora-Geral da República ao STF,  e o deferimento dele pelo Ministro Roberto Barroso, para determinar instauração de inquérito para apurá-los, é objeto de agravo interposto pela Defesa, o qual ainda não foi julgado pelo Supremo.

Resta evidente a total falta de fundamento para a prisão decretada, a qual serve apenas à exibição do ex-Presidente como troféu aos que, a pretexto de combater a corrupção, escanecem das regras básicas inscritas na Constituição da República e na legislação ordinária.

O Poder Judiciário, contudo, por suas instâncias recursais, haverá de, novamente, rechaçar tamanho acinte.

Eduardo Pizarro Carnelós

COM A PALAVRA, MAURÍCIO SILVA LEITE, QUE DEFENDE O CORONEL LIMA

O advogado Maurício Silva Leite, defensor de João Baptista Lima Filho, declarou estar perplexo com a prisão decretada. Segundo o advogado, ‘a própria Procuradoria-Geral da República manifestou-se em relação aos mesmos fatos e concluiu que não havia elementos para a prisão do meu cliente. Surpreendentemente, 2 meses depois, contrariando o entendimento da PGR, a prisão é decretada pela 1ª instância, sem a existência de nenhum fato novo”.

COM A PALAVRA, O ADVOGADO ANTÔNIO SÉRGIO MORAES PITOMBO, QUE DEFENDE MOREIRA FRANCO

“A defesa de Wellington Moreira Franco vem manifestar inconformidade com o decreto de prisão cautelar. Afinal, ele encontra-se em lugar sabido, manifestou estar à disposição nas investigações em curso, prestou depoimentos e se defendeu por escrito quando necessário. Causa estranheza o decreto de prisão vir de juiz de direito cuja competência não se encontra ainda firmada, em procedimento desconhecido até aqui.”

COM A PALAVRA, O MDB

NOTA DO MDB

O MDB lamenta a postura açodada da Justiça à revelia do andamento de um inquérito em que foi demonstrado que não há irregularidade por parte do ex-presidente da República, Michel Temer e do ex-ministro Moreira Franco. O MDB espera que a Justiça restabeleça as liberdades individuais, a presunção de inocência, o direito ao contraditório e o direito de defesa.

COM A PALAVRA, O ADVOGADO FERNANDO JOSÉ DA COSTA, QUE DEFENDE VANDERLEI DE NATALE

Após a surpreendente decretação da prisão de Vanderlei De Natale, seu advogado Fernando José da Costa vem a público afirmar que se trata de uma prisão ilegal, que não vincula Vanderlei aos fatos apurados no Rio de Janeiro. Sua empresa está sediada em São Paulo e jamais prestou serviços para a Eletronuclear, objeto da presente investigação.

COM A PALAVRA, AF CONSULT

Nota oficial do Grupo ÅF Consult

A ÅF não vai comentar as investigações em andamento.

Entretanto, esclarece que o grupo empresarial ÅF Consult tem 123 anos de existência e escritórios em mais de 30 países. Ao longo dessa trajetória de sucesso, já desenvolveu trabalhos de excelência em 100 países nas áreas de energia, indústria e infraestrutura. Conta atualmente com 10 mil empregados e faturamento líquido anual de R$ 4,5 bilhões. Com sede na Escandinávia, a AF Consult tem um histórico de lisura desde 1895, quando foi criada na Suécia por industriais do setor energético.

A participação da ÅF Consult na elaboração de projeto de engenharia para o reator da usina nuclear Angra 3 é comprovada e respaldada em contrato decorrente de processo licitatório vencido pelo grupo, superando três empresas internacionais concorrentes.

Auditorias independentes do Tribunal de Contas da União e contratadas pela Eletronuclear descartaram qualquer indício de irregularidades no contrato.

A conduta ética e profissional da AF Consult é reconhecida internacionalmente. A AF não compactua com irregularidades e suas práticas estão

em conformidade com as mais elevados padrões de comportamento empresarial e de compliance..”

COM A PALAVRA, A DEFESA DE CARLOS ALBERTO COSTA

Alexandre Sinigallia e Paola Forzenigo, advogados de CARLOS ALBERTO COSTA, manifestaram absoluta indignação em relação à medida repressiva. “A desnecessidade de prisão de nosso cliente já foi atestada pela própria Procuradoria Geral da República, órgão máximo de persecução penal, em manifestação apresentada ao Supremo Tribunal Federal em dezembro do ano passado. Nenhum fato novo surgiu e, mesmo assim, o Juízo de 1º Grau absurdamente reaviva a questão, demonstrando sanha punitiva desproporcional e inacreditavelmente desnecessária”.

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