Morar bem é um direito

Morar bem é um direito

José Renato Nalini*

21 de junho de 2021 | 11h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

Dentre os direitos fundamentais explicitados na Constituição da República, a moradia ainda não é usufruída por uma legião de brasileiros.

Há muitas décadas tenta-se atenuar a carência habitacional, mas com pífios resultados. Além da insuficiência de projetos e recursos, o sistema padece de uma falta crônica de criatividade.

Inacreditável que um país onde nasceram Niemeyer, Lúcio Costa, Vilanova Artigas, Jean Maitrejean, Paulo Mendes da Rocha e Ariosto Mila, dentre outros arquitetos famosos, para só citar os que já se foram, não se envergonhe de construir vilas residenciais inóspitas e arquitetonicamente desinteressantes. Isso para permanecer no eufemismo. Na verdade, são feias e impessoais.

Existe algum motivo para que as casas populares não observem o engenho estilístico da arquitetura nacional? O que inibe a poderosa indústria da construção civil fazer de conjuntos residenciais uma eloquente amostra do gênio e do talento tupiniquim?

Bons profissionais não faltam. Já tive oportunidade de sugerir, mais de uma vez, a realização de concursos que premiassem os melhores projetos e que fizessem das moradias um testemunho de que nem sempre o produto mais barato tem de ser também um atentado à estética.

Também não faltam ideias novas. Vejo com satisfação, o método “off-site” de construção chegar ao Brasil, depois de exitosa experiência no Canadá, Europa e Japão. O sistema, que significa “fora do terreno”, permite que diversas etapas da construção ocorram simultaneamente, fora do local definitivo.

Mediante inteligente lógica de produção, adota etapas padronizadas e parametrizadas, com garantia de entrega em 25% do tempo que seria utilizado na construção convencional.

É o modelo promissor para as “construtechs”, como estão sendo chamadas as startups do setor de construção. As primeiras experiências mostraram-se viáveis para a urgente entrega de hospitais de campanha, necessários durante a pandemia. Mas, como a esperança de que a peste não permaneça conosco para sempre, é fundamental que tal sistemática seja estendida para suprir a imensa deficiência no campo da moradia doméstica.

Com o olhar no aspecto econômico, a empresa Tenda, considerada uma das principais construtoras do país, aposta na construção off-site, mas para a população de baixa renda em cidades do interior.

Ela cuida de instalar uma fábrica de montagem no município de Jaguariúna, com capacidade produtiva de 10 mil unidades anuais até 2026. Aquilo que no Primeiro Mundo tem sido utilizado para edificar residências de alto padrão, aqui reveste condições de atender também aos brasileiros menos favorecidos. Entre nós, as condições são até mais favoráveis porque é possível aliar o método “fora do canteiro de obras” com a tecnologia “wood frame”. Ela permite se faça uma parede composta por 4 elementos. A parte estruturante usa pilares de pinus de reflorestamento e o centro se faz com cimento, gesso e uma membrana especial, que garante algo muito importante: a umidade sai da casa e a membrana não deixa que ela penetre em seu interior.

As maiores vantagens estão em conseguir uma parede íntegra, sofisticada e mais robusta, que não mofa, não cria rachaduras e suporte tanto peso quanto o concreto. Os materiais utilizados também asseguram conforto acústico e térmico.

A Tenda desenvolve também dois projetos-piloto do novo modelo. Um condomínio de 49 casas em Mogi das Cruzes e uma parceria com a TEC-verde, principal player de construção em “wood frame” do Brasil. A proposta é criar um condomínio de casas em Leme, cujo custo final estará compatível com a faixa de preços do programa “casa verde amarela”, novo nome do “minha casa, minha vida”.

Iniciativas como essa vão impedir que ocorra aquilo que é frequente para os “pombais” desprovidos de beleza, de verde e de condições para a preservação da individualidade do morador. Pequenas casinhas, todas iguais e não distinguíveis, não ajuda o desenvolvimento de uma cultura de convívio civilizado, mas predispõem ao surgimento de conflitos. Até porque, há uma inexplicável economia dos terrenos, para que acomodem o maior número de residências possível, sem o espaço que deveria ser reservado ao verde e à criação de condições inibidoras de uma nefasta promiscuidade entre os moradores.

Melhor do que isso, só se os arquitetos fossem chamados para elaborar projetos diferentes, que mostrassem a exuberância de nossa capacidade criativa e, simultaneamente, conferissem identidade original a cada família do conjunto. Como o ser humano é singular e irrepetível, toda tentativa de homogeneização é contraproducente e ineficaz.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras, gestão – 2021- 2022

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