Moradores da Vila Leopoldina fazem lobby para seus vizinhos continuarem vivendo na miséria

Moradores da Vila Leopoldina fazem lobby para seus vizinhos continuarem vivendo na miséria

Matheus Hector*

10 de setembro de 2020 | 09h00

Matheus Hector. FOTO: DIVULGAÇÃO

Xandão Beraldo é um morador da Comunidade da Linha, favela situada ao lado do CEAGESP e antigos complexos industriais. Essa comunidade é um símbolo de como uma boa cidade e a miséria podem estar separadas por poucos quarteirões, já que ela é um dos lugares mais precários para viver em São Paulo e está situada na Vila Leopoldina, região nobre da cidade.

A Comunidade da Linha faz parte de um complexo de favelas, junto à Comunidade do Nove e ao Cingapura Madeirite, que sofre por problemas humanitários graves: uma minicracolândia, a falta de saneamento básico e uma densidade populacional de 50 famílias por km², o que potencializa as sucessivas enchentes e incêndios que assolam a região.

As comunidades foram fundadas há 56 anos pela avó de Xandão, por meio de ocupações em um trecho desativado da antiga linha férrea paulista. Mas se sua avó se instalou ali por necessidade, Xandão tem a missão de dar moradia digna para as quase 800 famílias que moram por ali, lutando pela aprovação do PIU Vila Leopoldina.

O Programa de Intervenção Urbana (PIU) Vila Leopoldina promete resolver estes problemas nos próximos 10 anos. A ideia central do projeto é liberar potencial construtivo para o setor privado na região, em contrapartida à construção de equipamentos públicos e moradia social para todos que hoje estão nas favelas.

O projeto saiu de uma parceria entre o Instituto Urbem e o Grupo Votorantim, que detém uma das fábricas desativadas da região. A situação é obviamente ganha-ganha-ganha: os moradores das comunidades terão acesso a uma moradia social, a prefeitura lucrará a partir da venda de títulos que permitem a construção na região e a Votorantim (ou outro grupo que arrematar esses títulos) vai lucrar com a construção de novos empreendimentos.

Além disso, estão previstas no Projeto, a construção de um Espaço Vida para acolher os dependentes químicos da minicracolândia, uma Unidade Básica de Saúde e uma creche para os moradores da região. A prefeitura abraçou o projeto, que está para ser votado na Câmara de Vereadores, porém os parlamentares apresentam resistência em votá-lo, devido ao lobby dos moradores da parte nobre do bairro.

Apesar de membros das comunidades, como o Xandão, estarem mobilizados pela aprovação do projeto, os opositores criaram o movimento Defenda Vila Leopoldina, que tem uma pauta estranha, já que não está claro do que região deve ser protegida. O grupo usa sua influência para espalhar narrativas falsas sobre o projeto e coletar assinaturas para que o PIU não seja aprovado.

Uma das iniciativas mais caricaturais partiu de um supermercado local, que deu descontos aos clientes que fossem signatários do abaixo-assinado. As mentiras continuam a surgir de todos os lados, a principal delas é que os terrenos estão contaminados e colocariam a população em risco. Porém, estudos da própria Prefeitura mostram que uma parte dos lotes já pode ser usada e outros passarão pela descontaminação assim que o PIU for aprovado.

Alguns registros na imprensa deixam claro qual é a real preocupação dos moradores. Falas preconceituosas como a de que o projeto trará traficantes para dentros dos prédios e que o bairro terá que conviver com pancadões por todos os lados, mostram que estamos diante de um clássico NIMBY, expressão em inglês que quer dizer “Não no meu quintal!”

O NIMBY está profundamente enraizado na política urbana de São Paulo, sistematicamente moradores fazem lobby para manter privilégios como zoneamentos mais rígidos ou impedir novos empreendimentos ou projetos sociais. O objetivo central está em impedir que uma maior oferta de imóveis reduza os preços das regiões, mantendo a moradia artificialmente mais alta.

A consequência disso é uma cidade que afasta seus moradores das regiões centrais e/ou coloca-os em situações irregulares, com observado nas comunidades da Linha e do Nove. No caso dos NIMBY´s da Vila Leopoldina, a lógica parece ser puramente social e preconceituosa.

Enquanto a Câmara senta no projeto, as pessoas passarão mais tempo correndo risco de perder suas vidas e seu patrimônio em um novo incêndio ou enchente. Enquanto os moradores espalham Fake News, dezenas de pessoas habitam uma cracolândia em uma das regiões mais nobres de São Paulo.

Defender a Vila Leopoldina é combater as desigualdades sociais e o preconceito, e o primeiro passo para isso tem que ser aprovar o PIU. Não podemos deixar que a neta de Xandão continue a viver numa situação tão precária nas próximas décadas.

*Matheus Hector é formado em Economia no Insper com extensão em Urbanismo pelo CitiesX da Universidade de Harvard. Realizou trabalho humanitário na Índia e na África e como pesquisador fez trabalhos na área de educação e desenvolvimento econômico. É fundador do Consilium, entidade de debate de políticas públicas e formação de jovens lideranças

Tudo o que sabemos sobre:

ArtigoVila Leopoldina [São Paulo]

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: