Mocidade e democracia

Mocidade e democracia

José Renato Nalini

03 de março de 2022 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

Diante do manifesto desinteresse da maior parte da juventude pela política, é importante qualquer tentativa de reversão desse quadro. Não há alternativa, por enquanto, fora da política.

Além da “Oração aos Moços”, de Ruy Barbosa, lida aos bacharelandos da São Francisco, em ocasião de enfermidade que o impediu de estar pessoalmente aqui, existe um discurso de formatura pronunciado em 1931 aos formandos da Bahia, pelo Professor Moniz Sodré. Não confundir com o jornalista Muniz Sodré, que acaba de completar seus oitenta anos. O Moniz Sodré paraninfo faleceu antes de completar oitenta anos, em 9.6.1940. Era jurista, educador e parlamentar muito respeitado na Bahia, onde nasceu, e em todo o Brasil.

Seu discurso de paraninfo é uma peça oratória várias vezes publicada, contendo conclamação da juventude para implementar a verdadeira democracia em nosso país. Muito de seu conteúdo é apropriado para os dias que hoje vivemos: “Foi sempre das maravilhas destes sentimentos superiores, que douram a alma juvenil dos povos cultos, que irromperam os mais belos assomos de independência para a conquista da liberdade. Olhai a história do mundo, na luminosa trajetória das suas legítimas reivindicações democráticas. Quando sobre uma nação desencadeiam-se as forças avassaladoras do despotismo político, é sempre no seio das suas Universidades e na consciência incorruptível dos moços, que lhes enchem as escolas, que se organizam os elementos de resistência ao regime de opressão, e explodem os gritos de protesto contra os crimes da tirania. Há mais de um século que a mocidade, entre as raças superiores, nos dá exemplos contínuos dessa sublime energia moral, cujos milagres se alimentam nas vibrações do seu ardoroso entusiasmo, aquecido nas chamas desse excelso idealismo, que ilumina a alma dos povos, fadados aos prodígios de um grande destino histórico”.

1931 era o ano imediatamente após à Revolução de 30, um ano anterior à Revolução Constitucionalista de São Paulo, deflagrada em 9 de julho de 1932.

A oração é longa e substanciosa. Moniz Sodré prossegue: “Mas a liberdade não se encadeia. Funde, nas fornalhas do seu heroísmo, todos os grilhões, transformando-os em armas de combate e em instrumentos de triunfo. No primeiro instante a vitória da força implanta o desânimo do terror, a paz dos cemitérios. Imobilidade efêmera. Morte aparente. Acumulam-se as resistências no silêncio desta tranquilidade enganadora, como nas entranhas da terra trabalham ocultamente os elementos ígneos que vão produzir as grandes erupções vulcânicas. De repente irrompem as explosões da consciência humana, que zombam de todas as opressões”.

Invoca o protagonismo de universitários que, no Velho Continente, conseguiram vitória sobre a opressão, com a força do idealismo: “Eles, (os estudantes) sob os ímpetos de incandescente entusiasmo pela liberdade, organizaram-se em “legião acadêmica”; com os ardores do seu patriotismo despertaram o heroísmo da resistência nas outras classes sociais, e unidos, fortes pelo sublime idealismo das reivindicações democráticas, exigem a abolição da censura, a liberdade da imprensa, a publicação dos orçamentos, o estabelecimento de uma representação nacional”.

Não é algo impressionante que há noventa anos, o paraninfo mencionasse liberdade de imprensa e publicação dos orçamentos? Quem diria, em 1931, que em 2021 nós tivéssemos orçamento secreto?

E continua: “São eles, os estudantes, que, no estoicismo da sua coragem cívica, vão levar ao governo do terror essa representação de justiça, formidável grito de consciência, que repercute como um brado de guerra em favor da liberdade”. Adverte que a missão é difícil: “Mas o despotismo é como a hidra mitológica, na feroz monstruosidade das suas sete cabeças, que tantas vezes se cortem, quantas logo se reproduzem”.

O libelo contra a opressão era um chamado à mocidade, pois “onde a tirania se hipertrofiava nas mais execrandas manifestações do insolente e sanguinário despotismo; onde as truculências do poder excediam, na monstruosa brutalidade dos bárbaros processos de bestial repressão, os instintos mais ferozes da baixa animalidade; onde a ideia de liberdade era um símbolo de martírio, o pensamento de revolta valia por um sudário das maiores e últimas expiações, era exatamente neste ambiente de hediondas perseguições, nesta atmosfera rubra de calabouço e de morte que essa plêiade juvenil dos intelectuais soltava o brado altissonante do seu protesto patriótico contra as vilanias da força”.

Para Moniz Sodré, a recordação dos exemplos históricos era capaz de lhe embalar “o espírito em doces esperanças. Por que a mocidade da minha terra não há de ser também a pioneira da nossa redenção política?”.

Deus ouça o seu apelo, Professor Moniz Sodré! E 90 anos depois, frutifique em nosso Brasil.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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