Mitos e verdades que não contaram a você sobre inovação corporativa

Mitos e verdades que não contaram a você sobre inovação corporativa

Marcone Siqueira*

09 de fevereiro de 2021 | 08h10

Marcone Siqueira. FOTO: DIVULGAÇÃO

Durante muito tempo, inovação foi diferencial das empresas. Veja bem: foi. Essa é uma constatação em diversos setores, inclusive no Brasil. Um tempo atrás, o CEO de uma multinacional diria: “somos inovadores” – com ar de líder disruptivo. Hoje, a afirmação sozinha não se basta. Inovar deixou de ser diferencial e virou pré-requisito para as maiores empresas do mundo se manterem competitivas. Sem contar que uma estratégia sólida de inovação tem sido vista pelo mercado como ponto positivo no valuation das companhias.

Uma das formas de avançar no tema é a inovação aberta, um meio para a organização buscar respostas para seus desafios além das paredes do escritório, junto a outras empresas, startups, universidades e institutos de pesquisa. O conhecimento se tornou tão complexo e distribuído que, cada vez mais, organizações têm direcionado o olhar para empreendedores. Uma pesquisa da PwC com 1.200 executivos em 44 países identificou que mais de 60% das empresas têm usado a inovação aberta como estratégia para obter resultados, nos últimos anos.

Por serem menores e com processos mais ágeis, servidas de times talentosos e hábeis em executar projetos, as startups são excelentes opções para acelerar o processo de inovação de organizações tradicionais. De modo geral, as empresas seguem três possibilidades de relacionamento: firmar parcerias com os donos do negócio (partner), adquirir a startup (buy) ou identificar oportunidades e construir a própria solução (build).

Comento a seguir alguns mitos e verdades para ajudar CEOs, diretores e outros profissionais a alcançarem o sucesso nessa incansável jornada de inovação:

1 – Buscar opções nos portfólios de aceleradoras de startups pode ser a saída mais rápida para encontrar soluções inovadoras.

MITO. Esse pensamento ganhou popularidade porque as aceleradoras apresentam o seu portfólio às empresas e são essas soluções que elas tentam vender às corporações. De acordo com o Global Entrepreneurship Monitor, todos os anos 100 milhões de novas startups e negócios surgem no mundo inteiro. Qualquer portfólio de qualquer aceleradora, por maior que ele seja, sempre vai ser estatisticamente irrelevante frente ao potencial que tem o mercado. Assim, o melhor que a grande empresa pode fazer é procurar ferramentas concretas de acesso ilimitado a esse ecossistema. Outra questão que surge é que algumas aceleradoras podem se sentir tentadas a encontrar um cliente para as startups do seu portfólio, em vez de, em primeiro lugar, se dedicar a resolver o problema da empresa.

2 – Minha empresa pode se aproximar das startups sozinha, sem ajuda de especialistas.

VERDADE. Mas aí, há inúmeros poréns. Um deles: dificilmente, empresas conseguem construir uma rede de relacionamento tão ampla quanto as consultorias especialmente dedicadas a isso. Aproximar-se do ecossistema é determinante para encontrar respostas efetivas. E não só no Brasil. Em algum lugar do mundo, alguém já resolveu o seu problema, que você ainda não sabe como solucionar no seu raio de ação. Há técnicas e atalhos para se chegar a essas soluções tanto nacionais quanto internacionais, que só as consultorias especializadas em inovação corporativa dominam, com apoio de redes formadas essencialmente por empreendedores, mentores, professores, pesquisadores e investidores.

O mais recomendado é ajudar seus colaboradores a focarem no negócio – e não orientá-los a ficar buscando startups. Ao trazer consultorias especializadas, o gestor ganha espaço para criar processos que viabilizem a inovação sem barreiras na organização, deixando o papel de buscar as melhores soluções para aqueles que de fato entendem do assunto e têm uma rede construída de acesso a essas soluções. O ecossistema de startups é muito vivo e dinâmico, exigindo que a própria rede seja atualizada dentro de um timing muito específico.

3 – Inovar por meio de parcerias ajuda a garantir a continuidade dos projetos de inovação.

VERDADE. Há empresas que concentram em uma ou poucas pessoas internas todo o conhecimento e domínio de uma iniciativa inovadora e acabam ficando reféns do turnover das equipes. Por isso, é preciso minimizar o risco de se perder o fio condutor de programas estratégicos por causa da mudança de profissionais em cargos-chave. Há diversas formas de ajudar a garantir a continuidade dos projetos, como o fortalecimento das iniciativas de retenção de talentos e a inovação ao lado de parceiros externos.

4 – Inovação tem mais a ver com criatividade do que com resultado.

MITO. Inovação só é inovação se gera impacto positivo. Acredito muito nessa premissa. A inovação tem que gerar valor e se não gerar valor será considerada apenas uma invenção, algo legal que não tem nenhuma funcionalidade. As organizações têm que mostrar resultado porque, sem resultado, as iniciativas não se sustentam. A inovação deve ser meio para ajudar a bater meta, aumentar receita, expandir mercado, engajar colaboradores em novos processos. Tem que impactar na performance.

5 – O processo de inovação em uma empresa de grande porte depende da área de Pesquisa & Desenvolvimento (P&D).

MITO. Os projetos também podem ser iniciados por demandas de outras áreas. Para dar certo, a inovação precisa permear toda a empresa e ter a ideia “comprada” por todo mundo. Essa é uma conversa sobre cultura corporativa. Não é uma questão de ser moderno, mas de crença e abertura à mudança, a novas experiências e processos. Da mesma forma, a área de P&D é uma excelente fonte de oportunidade de melhorias nos processos da empresa, que podem ser acelerados por meio do relacionamento com startups e empreendedores. Ou seja, até P&D que tradicionalmente é inovação “fechada” pode se beneficiar da proximidade com o ecossistema.

6 – As grandes organizações precisam aprender a falar a língua das startups.

VERDADE. O universo das corporações e das startups é muito diferente e esse contato pode causar estranhamento. Organizações que se envolvem com startups chegam a investir em workshops e cartilhas para os colaboradores no intuito de amenizar o impacto das diferenças culturais. É importante poder contar com pessoas que já estiveram nos dois lados e que possam traduzir o que for necessário para a relação dar certo.

*Marcone Siqueira é cofundador e diretor da The Bakery, investidor anjo e professor dos cursos MBA em Inovação na FIAP e Fintechs no Ibmec

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